samedi 19 septembre 2026

 


Onde se vê que o paquete, que se supõe ser o de Lucian, tinha percorrido o mundo mais depressa do que os outros… e, no entanto, alguma coisa ainda resistia… quase nada, apenas algumas horas, uma margem irrisória se comparada com os milhares de quilómetros de água, com as tempestades possíveis, com as correntes invisíveis, com as noites, com o nevoeiro, com todas essas forças que não possuíam mostrador nem relógio… mas esse quase nada bastava agora para dar à travessia um outro andamento, e começara a correr o rumor de que, desta vez, se tentaria ganhar aquilo que ainda faltava, apagar essas últimas horas e fazer finalmente descer o número abaixo dos cinco dias.

A partir desse momento, a velocidade podia deixar de ser apenas a do paquete e tornar-se, quase sem que ninguém disso se apercebesse, aquela segundo a qual as próprias coisas passariam doravante a ser percebidas. Quanto mais depressa se avançava, mais rapidamente aquilo que aparecia tinha de ser reconhecido; quanto menos tempo era concedido ao exame, mais peso adquiria a primeira interpretação, e a extraordinária faculdade do cérebro de antecipar o mundo, que normalmente lhe permitia ganhar sobre ele as frações de segundo necessárias ao gesto, podia começar a correr um pouco longe demais à frente daquilo que deveria esclarecer.

Não se tratava ainda de nada que se assemelhasse a uma falha; pelo contrário, tudo funcionava admiravelmente. As perceções chegavam, as formas eram reconhecidas, os movimentos corrigidos, os hábitos realizavam aquilo que deles se esperava com essa economia que constitui talvez uma das formas mais notáveis da inteligência. Mas, quando um sistema aprendeu que uma resposta rápida é quase sempre a resposta certa, o sucesso repetido dessa rapidez pode acabar por se tornar, ele próprio, uma prova, e deixa-se insensivelmente de distinguir entre aquilo que se vê e aquilo que a experiência passada permite completar antes mesmo de o ter visto por inteiro.

Talvez nem sequer fosse necessário que alguém exprimisse essa vontade, de tal modo o próprio paquete parecia trazê-la nas suas linhas, no rumor contínuo das suas máquinas, na maneira como a proa permanecia estendida em direção ao que vinha, como se tudo aquilo que nele se acumulara — o aço, a potência, os cálculos, as anteparas, a confiança — já não pudesse contentar-se em ter reduzido o perigo e tivesse agora de se aplicar a reduzir o tempo.


Inspirado muito livremente… a partir de
Morgan Robertson, O Naufrágio do Titan
Futility, or the Wreck of the Titan. 1898

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