lundi 26 octobre 2026

(259) A Abracadabrante História da Criança Lua

 

 

Onde o espírito de Félix, desertando a sua própria memória, cogita e se descobre, literalmente, no ato de pensar. Sozinho diante do seu caderno, com o lápis na mão, como o bastão na mão da Criança Lua, pensa que não pode desaparecer enquanto pensar…

Caderno de Félix

Se quiser avançar um pouco na compreensão da situação em que me coloquei, tenho de deixar de me perguntar de onde vem a Criança Lua para observar o que acontece quando ela chega. Esta diferença parece-me importante. Preciso de reencontrar uma lógica que tende a escapar-me desde que comecei a acompanhar demasiado de perto toda esta história. Uma origem pertence ainda ao passado, pressupõe um ponto atrás de nós que uma investigação poderia reencontrar. Uma passagem, pelo contrário, continua a agir e envolve tanto aquilo que a precede como aquilo que se lhe segue. E fá-lo de tal maneira que a Criança Lua deixaria de ser apenas o efeito de Igniatius, de Lucian ou de algum outro autor ainda desconhecido, para se tornar, ela própria, uma das causas daquilo que lhes acontece… e daquilo que me acontece agora.

Durante muito tempo, achei absurda a ideia de que uma personagem pudesse criar o seu autor. É evidente que semelhante afirmação é falsa se a tomarmos à letra. Uma personagem não faz, evidentemente, nascer o autor que a escreve. Compreendo finalmente que pode fazer nascer, nesse homem, aquele em que ele se torna ao escrevê-la. Esse nascimento não é uma imagem sem consequências, uma vez que aquele que existia antes de ter desenhado a Criança Lua ainda não podia ser aquele que a tinha desenhado. Tal como, antes de ter lido as cartas e o caderno de Lucian, eu não era aquele em que essa leitura me viria a transformar. Esta simples evidência abre algo de muito mais vasto do que eu teria desejado. Significa que os seres que julgamos criar participam na transformação daqueles que os fazem aparecer.

Pergunto-me então o que seria de todas as minhas precauções se amanhã descobrisse que Lucian tinha inventado Igniatius. Como se nunca tivesse existido um Igniatius sentado diante dele. Como se nunca tivesse havido outra voz senão a sua por detrás das cartas e dos relatos que há tanto tempo tento deslindar. Poderia acreditar, por um instante, que tudo estaria resolvido. Toda uma parte desta história acabaria então por desmoronar-se na ficção. Mas quase de imediato teria de reconhecer que Igniatius, mesmo inventado, teria produzido efeitos muito reais. Reconhecer que teria levado Lucian a escrever, depois a desenhar e, por fim, também a viajar. Teria modificado a maneira como Lucian percecionava aquilo que o rodeava. Depois, essas modificações ter-me-iam chegado, de tal modo que a existência de Igniatius já não poderia ser julgada apenas a partir da questão de saber se viveu ou não, mas também a partir de outra, muito mais embaraçosa, a de saber aquilo que ele fez viver.

No momento em que escrevo isto, sinto que alguma coisa se desloca na palavra, ou melhor, no próprio conceito de realidade. Já não posso contentar-me em opor aquilo que é real àquilo que é fictício. Algo que nunca existiu enquanto ser encarnado pode produzir atos no mundo real. Pode conduzir alguém a um lugar verdadeiro ou levá-lo a escrever uma carta verdadeira. Pode assustá-lo e fatigá-lo. Nenhum desses atos é menos real pelo facto de a sua origem passar por uma ficção. Será então necessário preservar cuidadosamente a diferença entre ficção e realidade, deixando, contudo, de as imaginar como dois territórios estanques? Ou será preciso admitir que parecem capazes de se atravessar mutuamente sem se confundirem?

Neste ponto, começo a compreender o que me acontece com Lucian e Igniatius, e por que razão a semelhança entre ambos me perturba cada vez mais, à medida que se torna menos fácil de explicar. Continuo a querer saber se um é o outro ou se um criou o outro. Pergunto-me se duas pessoas se escondem por detrás de dois nomes. Surge então outra questão: consistiria a verdade em encerrar cada um no lugar que lhe teria sido atribuído?

Tudo aquilo que me é dado a observar revela formas que se atravessam mutuamente. Observo pensamentos de que ninguém parece poder afirmar ser inteiramente dono. Pergunto-me por que razão Lucian e Igniatius se assemelham tanto. Ter-se-á cada um deles tornado um lugar por onde passa alguma coisa do outro?

E eu, o que me permitiria acreditar que escapo a esta confusão a que tenho a delicadeza de chamar circulação?

 

 

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