“Cada vez que me surpreendo a tornar-me melancólico; cada vez que sinto descer na minha alma uma umidade fria e persistente; cada vez que me vejo involuntariamente parado diante das vitrines de casas funerárias, e que me detenho atrás de cada enterro que encontro; sobretudo cada vez que o meu humor se torna tão sombrio que me é necessário um poderoso princípio moral para me impedir de sair à rua e derrubar metodicamente os chapéus dos transeuntes, então considero certo que chegou o momento de ir ao mar o mais rápido possível. É o meu substituto para o pistola e a bala. Com um grande gesto filosófico, Catão lança-se sobre a sua espada; eu, tranquilamente, embarco.
Não há nada de surpreendente nisso. Se os homens o soubessem, quase todos, em um momento ou outro, sentem em relação ao oceano aproximadamente os mesmos sentimentos que eu.”
Herman Melville, Moby-Dick
“Deixemos esta Europa que não para de falar do homem ao mesmo tempo que o massacra em toda parte onde o encontra, em todas as esquinas das suas próprias ruas, em todas as esquinas do mundo.”
Frantz Fanon, conclusão de Os Condenados da Terra

– O universal... mal ouso pronunciá-lo... o universal poderia ser uma patologia…
– Veja só até onde você vai!
– Você acha que estou errado?
– Não é isso que me surpreende…
– Então... o que o surpreende?
– Surpreende-me o fato de que, frontalmente e sem precaução, você avance um pouco demais “ao ataque”!
– Por quê?
– Acredito honestamente que isso é necessário.
– Mas... e você sabe disso... isso vai contra o que o nosso mestre nos ensinou!
– Sei muito bem...
– E por que o universal seria uma patologia? Mas antes disso... teria sido o nosso mestre quem lhe ensinou isso... sem me dizer nada?
– Não... e é aí que surge o problema...
– O que quer dizer?
– Quero dizer que eu o ouvi...
– Tudo o que dizemos, nós o ouvimos...
– Não isso!
– O que foi que você ouviu?
– Aquilo que acabei de lhe dizer...
– Isso eu entendi, não há problema...
– O que tento lhe dizer... é que há o conteúdo, as palavras, e o continente, a voz...
– Sim, a voz do nosso mestre ou a de alguém mais!
– É aí que está o problema...
– Não o vejo!
– É normal...
– Você não me parece estar em seu estado normal!
– A voz que carregava aquilo que lhe relatei não era a de alguém mais...
– De onde vinha?
– Vinha de dentro de mim mesmo...
...É bem possível que eu não faça mais do que repetir o que ouvi... misturado com o que ouvi da boca daqueles que também tinham ouvido, mas não da mesma maneira…
– Quem mais além do nosso mestre?
– Nem sempre sei... e... quando sei, cito por honestidade…
Você sabe... é difícil para mim repetir aquilo que ouvi de muito longe. Vou tentar mesmo assim. Se a minha memória for boa, tão boa quanto a do meu mestre... quero dizer, o meu verdadeiro mestre e não aquele em quem acreditei por muito tempo e que existia apenas pela onipotência da imaginação do seu criador, que dizia tê-la colocado a serviço da minha... então, se a memória me permitir… e se eu não me perder pelo caminho… voltarei até o momento em que... deixarei de me lembrar. Existe uma fronteira, ainda que difusa, onde tudo para, e para além da qual a memória, se existe, não é mais do que o nada ou a imaginação.
Retomemos. No começo, há uma criança. De onde vem? Ninguém sabe. É uma dessas crianças cuja origem inteira custa a ser conhecida... e até mesmo se há origens, de tão pouco que se assemelha aos pais... se é que há pais.
– Por que diz isso?
– Essa dessemelhança não é tanto uma questão de aparência; poder-se-ia reconhecer certos traços físicos que estabelecem uma semelhança, mas não é esse o problema.
– Você fala da Enfant(criança / do latim infans: aquele que não fala Lua?
– Ele é diferente porque, de certa maneira, ao recusar falar, e de modo mais geral, recusa submeter-se à história... e em um outro começo...
– Como assim?
– A história da Criança Lua teria vários começos... Alguns dizem... uma criança, provavelmente atraída pela música, chegou…
– Quem diz isso?
– Ninguém sabe.
– Ele é chamado… ou chama-se… a Criança Lua… provavelmente porque parece frequentemente estar “na lua”… enfim… é vagamente o que se diz.
– De onde ele vem?
– O nosso mestre diz que vem de uma ruptura…
– Que tipo de ruptura?
– Uma ruptura no real…
– Não compreendo.
– Se quiser, poderíamos falar de uma ruptura no encadeamento das causas…
– Você quer dizer acaso?
– Não, antes uma fissura na necessidade causal…
– Isso é perfeitamente irracional!
– Engana-se. É apenas a irrupção do novo…
– No fundo, para além do jargão que você repete, não acha que isso é banal?
– Banal! Sim, talvez... mas em que medida?
– Em suma... não seria mais do que uma questão de medida...
– Que tudo seja uma questão de medida... aceito. Mas justamente essa medida depende do instrumento que mede. Ora, o próprio princípio do instrumento depende da medida que nele se inscreverá. Ele só pode medir aquilo que lhe corresponde. Se, por desgraça, o objeto a ser medido ultrapassa a medida, então o instrumento deixa de ter qualquer utilidade...
– Então... substituamos essa medida pela palavra augúrio...
– É de bom presságio?
– Você verá que a palavra resiste menos do que parece. O augúrio, em seu fundo, não é outra coisa senão uma maneira de recortar o céu antes que qualquer coisa ali apareça e de dizer: o que acontecer aqui, neste quadro que eu mesmo tracei, terá sentido. O que acontecer fora não terá, ou ao menos não para mim, não agora.
– E a Criança Lus...
– A Criança Lus passa por outro lugar. É tudo. Ele não atravessa o templum (quadro sagrado de observação).
– O templum...?
– O quadro de há pouco, ao qual ele não se submete e no qual se esperava um sinal dele. Observa-se a direção do seu voo e do seu olhar, o sentido do seu silêncio, e nada disso vem depositar-se onde se havia preparado um lugar para recebê-lo. O instrumento está pronto, o céu está aberto, e ele... desloca-se de outra maneira.
– Então é ele que está em falta.
– Eis a armadilha. Acredita-se que é ele. Mas o augúrio, e esta é sua lição mais difícil, nunca garantiu que o sinal viria. Garantiu apenas que, se o sinal viesse, saberíamos lê-lo. São duas coisas completamente diferentes. Uma é uma promessa sobre o mundo. A outra é apenas uma promessa sobre si mesmo.
– É uma distinção sutil.
– É decisiva. Aquele que confunde as duas acaba por acreditar que a ausência de sinal é um sinal. Que o silêncio fala. E às vezes é verdade, os romanos sabiam disso, um céu mudo podia ser favorável. Mas, no caso da Criança Lua, o silêncio que lhe atribuímos não é uma mensagem que ele envia. É um vazio que nós preenchemos com a nossa própria expectativa. Tornámo-nos, sem saber, os autores do augúrio que pretendíamos apenas ler.
– Portanto... a falta não estaria no sinal. Estaria naquele que espera o sinal.
– Naquele que traçou o quadro, sim. Que decidiu, antes que qualquer coisa acontecesse, o que poderia contar como favorável e o que seria lançado na obscuridade. Ele acredita ser leitor. É autor. E ignora isso, o que é pior.
– Seria então menos uma questão de sinais do que daqueles que pretendem lê-los. O céu, ele mesmo, não diz nada. Nunca disse nada. É uma superfície que aprendemos a preencher.
– ...Você acaba de dizer algo que eu mesmo não diria melhor. E, no entanto, talvez eu o tenha ouvido em algum lugar. De muito longe, como lhe dizia.
– E o nosso mestre, o que pensava?
– Ele pensava, creio, que a questão não era saber se os sinais existiam, mas saber quem havia traçado o quadro no qual deveriam aparecer. Porque aquele que traça o quadro decide, antes mesmo que algo aconteça, o que poderá contar como sinal e o que será rejeitado na insignificância. Ele já decidiu. Já julgou. O augúrio) vem depois, em aparência, para confirmar. Mas a confirmação já estava inscrita no próprio traçado.
– Como uma sentença disfarçada de pergunta.
– Exatamente. E a Criança Lua, saiba ele disso ou não, inclino-me a pensar que não, recusa esse traçado. Não por revolta, isso lhe atribuiria cálculo demais. Por natureza, simplesmente. Ele é de uma envergadura grande demais para o templum(quadro) que se desenhou para ele. E um ser cuja envergadura excede o quadro no qual se pretende augurá-lo... esse ser jamais será um bom presságio para aqueles que observam. Não porque traga má sorte. Mas porque transborda. E o que transborda, por definição, não pode ser lido.
– Ele torna os augures inúteis.
– Ele os torna honestos. O que não é a mesma coisa... e... menos confortável.
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