– Começar já é pressupor aquilo que ainda não foi posto. Todo incipit(começa-início) literário carrega essa aporia: supõe-se ser primeiro, mas é escrito depois...
– Os primeiros serão os últimos...
– Depois que a obra inteira foi pensada, escrita, retomada. O incipit é o último a nascer que se apresenta como o mais velho.
– O incipit seria um falso começo?
– Ele simula um nascimento espontâneo enquanto é fruto de uma elaboração.
–
Entendi que ele anuncia sem revelar e promete sem desvelar. E, se o
leitor, ao lê-lo, já está à espera do fim… bem… nós… muito antes desse
fim, gostaríamos de um começo mais consistente!
– O incipit é,
assim, muito mais do que uma simples entrada. É o gesto fundador pelo
qual uma obra se coloca no mundo. Esse gesto é ao mesmo tempo um limiar e
uma promessa. Ele reúne, em suas primeiras palavras, tudo o que uma
obra ousa ser. Esta história começa com Igniatius. Este incipit é
composto pelas primeiras palavras que ele anotou em um caderno que
Lucian leu quando Igniatius, que até então não falava... enfim... muito
pouco... começava apenas a falar com ele...
Há frases que nos leem de volta. Esta é uma delas.
A primeira coisa que me impressionou, antes mesmo de compreender por quê, foi esse dans(em). Não no início, como na Bíblia. Não era uma vez, como nos contos. Dans(em) un(um) commencement(início). Como se o começo não fosse um ponto numa linha, mas uma clareira na qual se entra. Um espaço cercado de árvores, ar, uma luz particular. Entrei nesse começo como se entra numa floresta, sem ver ainda para onde ela conduz, mas sentindo imediatamente que o ar ali é diferente.
E um início, não é o começo. Alguém escolheu a humildade do artigo indefinido. O que começa aqui poderia não ter começado. Ou começar de outra maneira... ou em outro tempo. Há outros começos possíveis, em outros lugares, em outros livros, em outras vidas. Este é um entre outros, e é precisamente isso que o torna precioso. Não simplesmente o único. O eleito, entre os possíveis.
Depois: ele chama a si mesmo.
Pensei em todas as crianças que vi antes de falarem. Essa maneira que têm de simplesmente estar ali, inteiramente, sem ainda poder dizer eu. Antes da linguagem, há algo mais puro do que a linguagem, uma presença sem nome, uma consciência sem fronteiras. E eis que isso é nomeado. Uma voz — a do narrador, a do mundo, talvez a sua própria vista de fora — coloca um nome sobre essa presença sem limites.
Ele chama a si mesmo. Não ele é chamado. Não o seu nome é. Ele chama a si mesmo, como se, mesmo sem fala, algo nele participasse desse batismo. Como se, no seu silêncio, ele se visse de fora e se reconhecesse nesse nome que ainda não tem meios nem palavras para pronunciar. Achei isso muito belo e muito justo, essa ideia de que a identidade começa antes que possamos reivindicá-la. Que somos nomeados no nosso silêncio, e que esse silêncio não é uma ausência, mas uma forma de assentimento.
L'Enfant(a Criança/infans). Seu primeiro nome.
Sorri. Depois senti algo se deslocar suavemente dentro de mim.
Enfant(Criança) como nome próprio é a palavra mais comum dada como a partilha mais íntima. Todo ser humano foi criança. Esse nome não distingue; ele reúne. Ele diz: o que te torna único é aquilo que partilhas com todos os que já viveram. A tua singularidade é a tua pertença.
Nunca tinha pensado que o universal pudesse ser um nome próprio. Que se pudesse ser nomeado naquilo que há de mais comum. Que uma mãe, ou um pai, ou o mundo, pudesse olhar para esse ser singular e insubstituível e dizer: eu te chamo Enfant(Criança), porque tu és isso antes de seres qualquer outra coisa.
Lune(Lua). Seu sobrenome.
E ali, algo se abriu que eu não esperava encontrar nas primeiras linhas de um livro.
O sobrenome diz a linhagem. De onde se vem. Os ombros sobre os quais se é carregado. Ora, essa criança vem da Lua, do reflexo do sol, isto é, do cosmos, do silêncio dos astros, das marés e dos ciclos, de tudo aquilo que regula a vida há bilhões de anos sem jamais pronunciar uma única palavra.
Sua família é o céu noturno.
E pensei — porque os grandes incipits fazem pensar coisas que não se tinha previsto — que todos nós viemos de lá, na verdade. Que nossas células carregam uma história que remonta muito antes dos nossos avós, muito antes da espécie, talvez antes mesmo da Terra. Que somos todos, em certo sentido, crianças da Lua — seres momentâneos, feitos de matéria antiga, que atravessam o mundo refletindo uma luz que vem de outro lugar.
A lua não tem luz própria. Ela recebe, e dá o que recebeu, transformado, suavizado, tornado habitável para aqueles que não podem olhar o sol de frente.
Perguntei-me se essa criança, ao crescer, seria uma dessas.
Ainda não sei quem é essa criança. Não sei o que lhe acontecerá. Li apenas uma frase.
Mas já sei — e isso é próprio dos grandes começos — que entrei em algo que me ultrapassa, e que não sairei dele exatamente o mesmo.
Ele chama a si mesmo o Enfant(Criança) Lune(Lua).
E eu jamais saberei se é ele que carrega esse nome, ou esse nome que o carrega.


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