jeudi 19 mars 2026

(6) A abracadabrante história da Criança Lua


« Escrever começa com o olhar de Orfeu.
Esse olhar é o movimento do desejo que rompe o destino e a preocupação do canto, e nessa decisão inspirada atinge a origem, consagra o canto.
Mas, para descer em direção a essa origem, Orfeu deve afastar-se de Eurídice.
Ele não deve olhá-la. Não deve tomá-la. Não deve trazê-la de volta à luz. No entanto, o olhar de Orfeu é esse momento em que ele se volta, em que vê Eurídice e em que, ao vê-la, a perde.»
 
Maurice Blanchot, O espaço literário
 
 
 
 

– Estamos sempre prestes a ser “engolidos”…
– Espero muito… que você esteja errado… e, antes de tudo, sinto-me um pouco perdido… Onde estamos?
– Estamos nesse momento singular em que uma obra começa… já a fazer mundo. A primeira palavra desta história não é apenas a primeira na ordem material da leitura. É o lugar onde algo se engaja, se põe em movimento, se arrisca, se declara, por vezes até se impõe antes de ser compreendido. Estamos em um começo... O começo de um livro que começa com estas palavras:
 
"Em um começo, ele se chama a Criança Lua."
 
– Cheguemos a esse criança do qual você não para de falar, em torno do qual gira, e do qual quase nada diz...
– Temos quase certeza de que ele apareceu... talvez numa caravana... talvez durante um espetáculo sob uma lona... em todo caso, sua enfance(infância) estaria ligada à vida de um circo itinerante...
– Por que toda essa imprecisão e essas indecisões?
– Porque os elementos de que dispomos estão espalhados em diferentes cadernos... eles mesmos dispersos em diversas histórias contadas por Igniatius, o paciente de Lucian, que, por sua vez, quando ainda se chamava Lucien, parece ter conhecido o ambiente de um circo.
– Por que dizer, e de onde vem essa fórmula: "Dans(em) un(um) commencement(começo), ele se chama l'Enfant(a criança / infans) Lune(Lua)".
– Segundo o nosso mestre, trata-se de um "incipit"(começa / início).
– O que é isso?
– Ainda segundo o nosso mestre, a palavra viria do latim incipere(começar), composto do prefixo in-(em, para) e de capere(tomar, agarrar). Incipere significa, portanto, literalmente: tomar em, apoderar-se de algo para começar. O radical cap- é extraordinariamente fértil em latim: encontra-se em caput(a cabeça), em capax(capaz), em princípio(princípio, de prim-cipium: aquilo que toma primeiro).
O incipit(começa) designava, inicialmente, nos manuscritos medievais, a palavra inaugural de um texto sagrado ou jurídico, para indicar que aqui começa algo importante.
Essa fórmula solene (Incipit liber…, "Começa aqui o livro de…") é o ancestral direto do título moderno. Ela carregava um valor quase ritual:
o texto nasce diante dos nossos olhos.
– E aos nossos ouvidos!
– No que diz respeito à abracadabrante história da Enfant(a criança / infans) Lune(Lua), e talvez, no que nos diz respeito... ao mesmo tempo... ou quase, cada palavra está no seu lugar e dissimula uma riqueza que exige algum esforço.
– Explique, por favor... começando por esse "Dans"(em) inaugural.
– O leitor, ou o ouvinte que somos, é então colocado, desde as três primeiras palavras, num universo onde o tempo não é linear. Ele não corre de um mundo a outro. Ele pulsa, abre-se em vários lugares ao mesmo tempo, como tantas flores que desabrocham em lugares diferentes e ao mesmo tempo sem se consultarem. Este commencement(começo) é "un"(um) entre outros, e essa modéstia é vertiginosa: ela diz que a história que começa não é a história, mas uma história, com toda a densidade e toda a fragilidade que isso implica. A preposição "dans"(em) acrescenta ainda algo. Não se diz “em” um começo, nem “por” um começo. Diz-se "dans"(em), como se está num quarto, ou num sonho. Pode-se entrar nesse commencement(começo) e nele permanecer. Talvez também se possa nele errar. O leitor não está diante do limiar; ele já está dentro, imerso, antes mesmo de saber onde está.
– E nós estaríamos lá?
– Dans(em) un(um) commencement(começo), sim...
– Por que você diz isso?
– Porque é preciso compreender que o artigo indefinido "un"(um) é perfeitamente indefinido. Não é no começo, a fórmula bíblica única, que estabelece uma origem absoluta antes da qual não havia nada. É "dans"(em) "un"(um) commencement(começo), o que supõe imediatamente que poderia haver outros. Que os começos são numerosos. Que podem estar dispersos. Que este é singular não porque é o único, mas porque se destaca de todos os outros...
E isso não é tudo...

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