— Veja, parece que a saiu da Criança Lus sua gaiola
— Será possível que tenha fugido?
— Fugido de quê… pergunto-lhe eu…
— Escute-o, ele fala no seu caderno…
Caderno da Crianca Lua
Olho, e algo se abre antes de eu compreender. De súbito, a gaiola está ali ao meu lado. Reconheço-a imediatamente. Continha-me. Agora inclina-se, oscila para todos os lados, vazia, quase devolvida a si mesma. Eu também estou ali. Fora da gaiola. Sentado, mas sem verdadeiro apoio. O meu corpo repousa e hesita ao mesmo tempo. Os meus pés pendem num espaço que ainda não me recebe. Então uma pergunta atravessa-me: como saí dali? Mantenho os olhos fechados. Diante de mim, do céu… ou em mim, algo se aproxima. Percebo-o antes de o poder nomear. Dois pontos de luz avançam como dois pequenos planetas luminosos. Dois olhares que se abrem e se fecham em lentos movimentos… que aparecem e desaparecem… repetindo em acelerado o ciclo mensal da lua … a do céu. Mas estão mais próximos, mais insistentes. A grande lua, impassível, permanece atrás, ampla, quase cheia, e eis que se aproximam os seus dois emissários que me olham. A luz muda de lugar. Vêm do longínquo que deixam para vir ao meu encontro. O corpo que a transporta é feito de noite. Como o meu manto e o chapéu demasiado largo que me envolve. Este chapéu não se limita a cobrir. Contém-me e protege-me na noite… oferece-me uma morada.
Eu não entro na obscuridade: habito nela.
A coruja, pois é assim que a vejo, circula nesta noite com uma tranquilidade ágil. Vê onde tudo permanece suspenso para os outros. Desloca-se sem esforço nesse espaço que conheço sem o percorrer da mesma maneira. Ela vê de olhos abertos na noite. Eu sou capaz de ver de olhos fechados na noite. Dois gestos, uma mesma pertença. Ela assiste. Está presente àquilo que advém, e aquilo que advém reflete-se nela. Como um espelho vivo. Então a questão desloca-se: aquilo que aparece está diante de mim, ou surge do interior de mim mesmo? A resposta desfaz-se à medida que a procuro. Tudo se sustém num mesmo plano. O fora aproxima-se, o dentro aflora. A cena toma forma no próprio momento em que a recebo. Compreendo que ver nunca consistiu em captar o que já está ali. Ver, aqui, faz advir. Aquilo que percebo não preexiste inteiramente. Forma-se nesta passagem. Nunca me faltou visāo. Simplesmente, ela seguia outro caminho. Nunca olhei como eles olham. Eu deixava vir. E aquilo que vinha não encontrava lugar nas palavras deles. A sua língua encerra. Nomeia o que já se encontra aí. Aquilo que recebo pede outra coisa. Então guardo o silêncio. Um silêncio pleno e carregado. Uma luz circula. Não vem do dia. Atravessa a noite. Não ofusca, acompanha.
Não sei de onde vem. Sei que ilumina de outro modo. E agora está ali, nesses dois olhos fixos em mim. A proximidade torna-se intensa. Quase cortante. Como se aquilo que se formava em mim tomasse rosto diante de mim. Permaneço.
Não procuro fugir desse olhar. Também não tento apoderar-me dele. Permaneço neste instante em que tudo se mantém em equilíbrio. A gaiola já não é o centro. Persiste, deslocada, inclinada, como uma forma antiga que perde o seu poder. Já não estou contido. Estou na passagem… fora dessa gaiola… Sair não basta.
É preciso permanecer em contacto com esta aparição… mas ainda não falo. A palavra virá talvez.
Por agora, algo olha… ou melhor… algo faz ver.
Permaneço nesta noite habitada… com a coruja… com as suas duas luas próximas.
E sinto que aquilo que aparece só se dá nesta atenção.


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