TRADUÇÃO PORTUGUESA
– É o termo exato…
– O que eu lhe perguntava?
– O senhor me perguntava: ‘quando saberemos se o que vemos e ouvimos é verdadeiro?’
– Não era exatamente essa a pergunta…
– Pouco importa, o assunto não tem fundo…
– De tão profundo que é!
– Seria preciso antes entender-nos sobre o que quer dizer o verdadeiro… Saberíamos dizer o que entendemos por verdade?
– Em verdade… não sei…
– O fato é que isso é muito difícil de estabelecer… mas…
– Mas?
– Mas e se tentássemos!
– Por honestidade, devo dizer-lhe… é uma batalha perdida de antemão.
– No entanto… somos honestos… repetimos o que nos foi dito!
– Ele nos torna honestos. O que não é a mesma coisa, e é muito menos cômodo do que sê-lo por si mesmo…
–
Ele? O senhor fala do nosso mestre e criador? E depois… honesto…
honesto… o senhor diz isso como se fosse uma punição… ou uma correção.
–
Não é isso, na maior parte das vezes? Veja o que se pede a alguém
quando se lhe pede que seja honesto. Pede-se que renuncie ao acordo que
havia feito consigo mesmo. Esse acordo tácito, confortável, pelo qual
havia decidido não olhar demasiado longe em certas direções.
– Mas sem esse acordo…
–
Sem esse acordo, talvez não se pudesse viver. Ou pelo menos não viver
entre os outros. A honestidade total é uma forma de violência. Nem
sempre desejada—raramente o é—mas ainda assim uma violência. Quem diz
sempre exatamente o que vê acaba sozinho, ou banido, ou, se a época o
permite, queimado.
– O senhor pensa em nomes.
– Passo vários em
revista, sim. E noto que quase todos têm em comum terem sido, em vida,
muito menos admirados do que depois da morte. A honestidade,
curiosamente, melhora com o tempo. Suporta-se melhor quando já não pode
atingir-nos diretamente.
– Então é uma forma de covardia.
– É uma
forma de prudência. Não confundo as duas, embora se pareçam à distância e
por vezes habitem a mesma pessoa sem se conhecerem. A covardia sabe o
que faz e se afasta. A prudência negocia. Diz a si mesma: o que vejo
pode ser verdadeiro, mas será este o momento, o lugar, o interlocutor
certo? A verdade que estou prestes a dizer servirá para alguma coisa, ou
apenas para me aliviar por tê-la dito?
– Então a honestidade verdadeira seria desinteressada.
–
Deveria ser. Mas aí está a sua contradição mais cruel: nunca se pode
saber completamente se somos honestos por consideração ao outro… ou por
necessidade… ou por nós mesmos. Em toda confissão, em toda declaração de
verdade, há uma parte de alívio pessoal que se assemelha estranhamente
ao egoísmo. Confessa-se menos para libertar o outro do que para aliviar a
si próprio.
– A honestidade como higiene!
– Como higiene, sim, e
por vezes como arma. Conheci pessoas de uma honestidade temível. Diziam
sempre a verdade, e é precisamente por isso que nada se podia
reprovar-lhes quando feriam alguém. Encontravam nisso, creio, um certo
orgulho tranquilo. Uma espécie de… limpeza moral que dispensava a
ternura.
– E a Criança Lua, nisso tudo?
– A Criança Lua não
escolhe ser honesta. É assim como alguém é canhoto, sem esperar
recompensa, sem sequer medir as consequências. E é exatamente isso que
incomoda. Uma honestidade escolhida pode ser negociada, compreendida,
por vezes voltada contra quem a exibe. Mas uma honestidade que não tem
consciência de si… não se sabe onde agarrá-la. Não oferece ponto de
apoio.
– Não pode, portanto, ser imitada.
– Nem sequer pode ser
verdadeiramente reconhecida. Confunde-se com ingenuidade, com teimosia,
com uma falta—falta de cálculo, falta de finura social. Procura-se por
trás dela uma intenção escondida, porque não se imagina que algo tão
perturbador possa ser inocente. E enquanto se procura a intenção…
perde-se a verdade.
– Como com os augúrios.
– … Como com os augúrios. Olha-se com tanta insistência para o quadro que se traçou… que já não se vê o que acontece fora dele.
– Como a Criança Lua?
– A Criança Lua vê.
– Como ele faz?
– Ele lê. Lê muito… e depois…
– E depois o quê?
– Depois deixa de pensar…
– Então, não vai acreditar em mim… o fato de deixar de pensar permite-lhe sair do quadro que nos encerra…


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