mardi 24 mars 2026

(11) A abracadabrante história da Criança Lua

 

– Perdoe-me… não compreendo esta imagem… Poderia dizer-me o que se passa nela e se se trata da Criança Lua?
– Você tem sorte… acontece que Igniatius, que falava pouco, escreveu num dos seus cadernos… sobre esta imagem que tinha levado a Lucian… e o nosso mestre leu-ma… Eis o que guardei.
 
 
 
Primeiro caderno de Igniatius
 
Esta imagem encena um encontro desproporcionado entre uma figura minúscula e uma massa animal gigantesca. Tudo está organizado em torno desta relação de escala. À direita, uma pequena personagem parece estar de pé, ou quase a dançar, sobre uma espécie de passarela vermelha. Diante dele, ou melhor, à sua volta, estende-se o imenso corpo de um animal azul-violeta, cuja natureza ainda não percebo, mas cuja presença transborda quase toda a paisagem. A imagem não conta apenas uma cena; constrói um mundo onde o cenário, o animal, a arquitetura e a figura humana estão presos na mesma tensão teatral.
A primeira coisa marcante é a estilização. Não estamos num registo naturalista. As formas são achatadas, contornadas por linhas escuras, quase como numa gravura colorida ou numa imagem de livro ilustrado. As cores são poucas, mas distribuídas com grande força: azul-esverdeado, violeta, vermelho, creme. Esta restrição dá ao conjunto uma coerência muito forte. Cada cor parece menos descrever a realidade do que distribuir forças. O vermelho não é apenas vermelho: corta, atravessa, põe em risco. O violeta do animal não é zoológico: confere ao corpo uma qualidade onírica, noturna, quase mítica. As longas formas claras que descem do topo da imagem assemelham-se a fumos, tiras de nuvens ou drapeados. Fazem flutuar toda a cena numa atmosfera entre paisagem e cenário teatral.
A composição é extremamente tensa. O olhar é conduzido primeiro para a massa enorme do animal, depois para a fina diagonal vermelha que atravessa a imagem, e finalmente para a pequena figura na extremidade direita. Esta passarela funciona como uma linha dramática. Liga o humano e o monstruoso. É também a linha do risco. Nada indica uma estabilidade assegurada. As hastes verticais no primeiro plano reforçam ainda mais esta impressão de estrutura frágil, improvisada, quase precária. Dir-se-ia um dispositivo de fortuna, uma ponte de teatro ou de circo, um andaime, ou ainda um palco suspenso entre dois mundos.
A besta ocupa aqui um lugar singular. Não é mostrada em ação, nem como simples elemento da natureza. É maciça, quase imóvel, mas essa própria imobilidade é inquietante. Não é a tranquilidade de um repouso banal; é a suspensão de uma potência enorme. O seu olho, pequeno mas muito visível, basta para animar todo o corpo. O animal parece metade paisagem, metade criatura. O seu dorso confunde-se com a linha das colinas ou da terra. O seu volume torna-se território. Há aqui uma bela ambiguidade: o animal não habita a paisagem, está a tornar-se paisagem. Esta fusão transforma a cena numa visão arcaica, quase mitológica, onde as fronteiras entre o vivo, o mundo e o cenário deixam de ser nítidas.
A pequena figura parece quase cómica na sua desproporção, mas esse cómico é imediatamente absorvido por uma dimensão mais profunda. Os braços abertos evocam várias atitudes ao mesmo tempo: desafio, equilíbrio, saudação, dança, invocação, ou tentativa de manter o lugar numa linha incerta. Ele não enfrenta o animal pela força. Opõe-lhe apenas uma postura. Isso é essencial. Toda a cena parece dizer que, diante do imenso, o humano não dispõe nem de armas nem de domínio, mas apenas de um gesto, de uma presença, de uma maneira de se manter. Isso dá à imagem um alcance quase existencial. A personagem não é apenas pequena; encarna a fragilidade humana perante aquilo que a ultrapassa.
O vermelho da passarela desempenha um papel decisivo. Na imagem, pode ser lido como caminho, ponte, ferida, costura, corte, ou língua estendida através do mundo. Atravessa o corpo do animal sem verdadeiramente o penetrar, como se um caminho humano tentasse abrir passagem através de uma massa anterior, mais antiga que ele. O vermelho introduz algo de construído, voluntário, talvez cultural, num universo dominado por uma potência arcaica. Poder-se-ia dizer que a imagem põe em tensão dois regimes: o da massa orgânica, animal; e o da linha, do percurso, do dispositivo, do teatro humano.
As formas claras que descem do topo da imagem também merecem atenção. Assemelham-se a fumos ou a fragmentos de luz. Suavizam e ao mesmo tempo complicam a leitura. Podem fazer pensar num fogo fora de campo, em vapores, em sopros, em algo que desce do céu para a cena… ou o inverso. Pelo seu caráter ondulante, introduzem uma temporalidade diferente. Onde a passarela é tensa e direcional, as formas pálidas são flutuantes, sinuosas, quase sem destino. Acrescentam uma dimensão de sonho ou de visão. Impedem que a imagem se reduza a uma narrativa simples.
A relação entre primeiro plano e fundo é igualmente notável. À esquerda, veem-se formas angulosas vermelhas, hastes, enrolamentos vegetais. Ao centro e em baixo, uma água turquesa ou um solo líquido parece abrir-se. O fundo não é, portanto, um simples cenário passivo. Participa da instabilidade geral. Nada é verdadeiramente fixo. A paisagem parece montada como um teatro de planos sucessivos, mas um teatro onde cada plano poderia a qualquer momento desregular-se. Esta maneira de empilhar formas cria uma profundidade muito particular: não uma profundidade realista, mas mental, como em certas imagens simbolistas ou gravuras onde os elementos se ordenam segundo a sua intensidade e não segundo a perspetiva.
No plano simbólico, são possíveis várias leituras. O animal pode representar a potência do mundo vivo, o inconsciente, a memória arcaica, a própria matéria do real, pesada e silenciosa. Nessa indiferença, a pequena figura seria então aquela que tenta atravessar essa potência, não para a vencer, mas para se medir com ela. Pode também tratar-se de uma imagem do artista ou do equilibrista, aquele que inventa uma linha frágil acima daquilo que o esmagaria ou que o ultrapassa largamente. A passarela seria então a própria obra: uma estrutura ténue estendida sobre o enorme… o pré-humano.
Pode-se ainda ler esta cena como uma variação sobre o tema do monstro domesticado, desde que se compreenda que essa domesticação nunca é total aqui. Nada indica que o animal esteja domado. A personagem parece quase fazer um número, mas fá-lo à beira daquilo que poderia sempre engoli-la. Isso aproxima a imagem de um imaginário do circo ou do mito. O mundo torna-se espetáculo, mas um espetáculo arriscado, onde se expõe a algo maior do que si mesmo.
A imagem parece-me muito forte porque não escolhe entre ameaça e fascínio. A besta não é nem puramente hostil nem simplesmente pacífica. A personagem não é nem totalmente heroica nem apenas ridícula. A ponte não é nem segura nem já rompida. Tudo permanece suspenso. É essa suspensão que dá profundidade à imagem. Não conta um acontecimento concluído; mostra um instante carregado de possibilidades. Algo pode acontecer, mas ainda não aconteceu. A imagem vive dessa espera.
Por fim, há nesta cena uma dimensão quase cosmológica. O grande corpo violeta, os vapores pálidos, as diagonais vermelhas, as águas verdes compõem menos um lugar do que um pequeno universo. A personagem surge como uma figura de passagem, um pequeno passador numa linha estendida entre formas gigantescas. A imagem talvez fale disso: da condição humana como travessia, como equilíbrio instável, como gesto mantido diante da enorme opacidade do mundo.

 

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