– Perdoe-me… não compreendo esta imagem… Poderia dizer-me o que se passa nela e se se trata da Criança Lua?
– Você tem sorte… acontece que Igniatius, que falava pouco, escreveu num dos seus cadernos… sobre esta imagem que tinha levado a Lucian… e o nosso mestre leu-ma… Eis o que guardei.
– Você tem sorte… acontece que Igniatius, que falava pouco, escreveu num dos seus cadernos… sobre esta imagem que tinha levado a Lucian… e o nosso mestre leu-ma… Eis o que guardei.
Primeiro caderno de Igniatius
Esta
imagem encena um encontro desproporcionado entre uma figura minúscula e
uma massa animal gigantesca. Tudo está organizado em torno desta
relação de escala. À direita, uma pequena personagem parece estar de pé,
ou quase a dançar, sobre uma espécie de passarela vermelha. Diante
dele, ou melhor, à sua volta, estende-se o imenso corpo de um animal
azul-violeta, cuja natureza ainda não percebo, mas cuja presença
transborda quase toda a paisagem. A imagem não conta apenas uma cena;
constrói um mundo onde o cenário, o animal, a arquitetura e a figura
humana estão presos na mesma tensão teatral.
A
primeira coisa marcante é a estilização. Não estamos num registo
naturalista. As formas são achatadas, contornadas por linhas escuras,
quase como numa gravura colorida ou numa imagem de livro ilustrado. As
cores são poucas, mas distribuídas com grande força: azul-esverdeado,
violeta, vermelho, creme. Esta restrição dá ao conjunto uma coerência
muito forte. Cada cor parece menos descrever a realidade do que
distribuir forças. O vermelho não é apenas vermelho: corta, atravessa,
põe em risco. O violeta do animal não é zoológico: confere ao corpo uma
qualidade onírica, noturna, quase mítica. As longas formas claras que
descem do topo da imagem assemelham-se a fumos, tiras de nuvens ou
drapeados. Fazem flutuar toda a cena numa atmosfera entre paisagem e
cenário teatral.
A composição é
extremamente tensa. O olhar é conduzido primeiro para a massa enorme do
animal, depois para a fina diagonal vermelha que atravessa a imagem, e
finalmente para a pequena figura na extremidade direita. Esta passarela
funciona como uma linha dramática. Liga o humano e o monstruoso. É
também a linha do risco. Nada indica uma estabilidade assegurada. As
hastes verticais no primeiro plano reforçam ainda mais esta impressão de
estrutura frágil, improvisada, quase precária. Dir-se-ia um dispositivo
de fortuna, uma ponte de teatro ou de circo, um andaime, ou ainda um
palco suspenso entre dois mundos.
A
besta ocupa aqui um lugar singular. Não é mostrada em ação, nem como
simples elemento da natureza. É maciça, quase imóvel, mas essa própria
imobilidade é inquietante. Não é a tranquilidade de um repouso banal; é a
suspensão de uma potência enorme. O seu olho, pequeno mas muito
visível, basta para animar todo o corpo. O animal parece metade
paisagem, metade criatura. O seu dorso confunde-se com a linha das
colinas ou da terra. O seu volume torna-se território. Há aqui uma bela
ambiguidade: o animal não habita a paisagem, está a tornar-se paisagem.
Esta fusão transforma a cena numa visão arcaica, quase mitológica, onde
as fronteiras entre o vivo, o mundo e o cenário deixam de ser nítidas.
A
pequena figura parece quase cómica na sua desproporção, mas esse cómico
é imediatamente absorvido por uma dimensão mais profunda. Os braços
abertos evocam várias atitudes ao mesmo tempo: desafio, equilíbrio,
saudação, dança, invocação, ou tentativa de manter o lugar numa linha
incerta. Ele não enfrenta o animal pela força. Opõe-lhe apenas uma
postura. Isso é essencial. Toda a cena parece dizer que, diante do
imenso, o humano não dispõe nem de armas nem de domínio, mas apenas de
um gesto, de uma presença, de uma maneira de se manter. Isso dá à imagem
um alcance quase existencial. A personagem não é apenas pequena;
encarna a fragilidade humana perante aquilo que a ultrapassa.
O
vermelho da passarela desempenha um papel decisivo. Na imagem, pode ser
lido como caminho, ponte, ferida, costura, corte, ou língua estendida
através do mundo. Atravessa o corpo do animal sem verdadeiramente o
penetrar, como se um caminho humano tentasse abrir passagem através de
uma massa anterior, mais antiga que ele. O vermelho introduz algo de
construído, voluntário, talvez cultural, num universo dominado por uma
potência arcaica. Poder-se-ia dizer que a imagem põe em tensão dois
regimes: o da massa orgânica, animal; e o da linha, do percurso, do
dispositivo, do teatro humano.
As
formas claras que descem do topo da imagem também merecem atenção.
Assemelham-se a fumos ou a fragmentos de luz. Suavizam e ao mesmo tempo
complicam a leitura. Podem fazer pensar num fogo fora de campo, em
vapores, em sopros, em algo que desce do céu para a cena… ou o inverso.
Pelo seu caráter ondulante, introduzem uma temporalidade diferente. Onde
a passarela é tensa e direcional, as formas pálidas são flutuantes,
sinuosas, quase sem destino. Acrescentam uma dimensão de sonho ou de
visão. Impedem que a imagem se reduza a uma narrativa simples.
A
relação entre primeiro plano e fundo é igualmente notável. À esquerda,
veem-se formas angulosas vermelhas, hastes, enrolamentos vegetais. Ao
centro e em baixo, uma água turquesa ou um solo líquido parece abrir-se.
O fundo não é, portanto, um simples cenário passivo. Participa da
instabilidade geral. Nada é verdadeiramente fixo. A paisagem parece
montada como um teatro de planos sucessivos, mas um teatro onde cada
plano poderia a qualquer momento desregular-se. Esta maneira de empilhar
formas cria uma profundidade muito particular: não uma profundidade
realista, mas mental, como em certas imagens simbolistas ou gravuras
onde os elementos se ordenam segundo a sua intensidade e não segundo a
perspetiva.
No plano simbólico, são
possíveis várias leituras. O animal pode representar a potência do mundo
vivo, o inconsciente, a memória arcaica, a própria matéria do real,
pesada e silenciosa. Nessa indiferença, a pequena figura seria então
aquela que tenta atravessar essa potência, não para a vencer, mas para
se medir com ela. Pode também tratar-se de uma imagem do artista ou do
equilibrista, aquele que inventa uma linha frágil acima daquilo que o
esmagaria ou que o ultrapassa largamente. A passarela seria então a
própria obra: uma estrutura ténue estendida sobre o enorme… o
pré-humano.
Pode-se ainda ler esta
cena como uma variação sobre o tema do monstro domesticado, desde que se
compreenda que essa domesticação nunca é total aqui. Nada indica que o
animal esteja domado. A personagem parece quase fazer um número, mas
fá-lo à beira daquilo que poderia sempre engoli-la. Isso aproxima a
imagem de um imaginário do circo ou do mito. O mundo torna-se
espetáculo, mas um espetáculo arriscado, onde se expõe a algo maior do
que si mesmo.
A imagem parece-me
muito forte porque não escolhe entre ameaça e fascínio. A besta não é
nem puramente hostil nem simplesmente pacífica. A personagem não é nem
totalmente heroica nem apenas ridícula. A ponte não é nem segura nem já
rompida. Tudo permanece suspenso. É essa suspensão que dá profundidade à
imagem. Não conta um acontecimento concluído; mostra um instante
carregado de possibilidades. Algo pode acontecer, mas ainda não
aconteceu. A imagem vive dessa espera.
Por
fim, há nesta cena uma dimensão quase cosmológica. O grande corpo
violeta, os vapores pálidos, as diagonais vermelhas, as águas verdes
compõem menos um lugar do que um pequeno universo. A personagem surge
como uma figura de passagem, um pequeno passador numa linha estendida
entre formas gigantescas. A imagem talvez fale disso: da condição humana
como travessia, como equilíbrio instável, como gesto mantido diante da
enorme opacidade do mundo.

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