“A história da arte é quase três vezes mais longa do que a da escrita, e a relação entre esses dois tipos de expressão já aparece nas primeiras formas de escrita, como os hieróglifos egípcios. No entanto, são raros aqueles que veem na arte um sistema de comunicação cuja história está ligada à da linguagem. A arte seria considerada de maneira totalmente diferente se se adotasse esse ponto de vista.
O ser humano está habituado a admitir a existência de línguas que não compreende de imediato e que precisa aprender; mas, pelo fato de a arte ser essencialmente visual, espera poder apreender imediatamente a sua mensagem e irrita-se quando isso não acontece.”
Edward T. Hall, A Dimensão Oculta, p. 105
Caderno da Criança Lua
Quanto mais observo atentamente a baleia… mais tenho a sensação de que ela deixa de ser um animal… torna-se uma espécie de superfície viva de memória. As suas estrias não descrevem apenas um corpo: elas contêm passagens. Cada cavidade parece ter sido escavada por algo que aconteceu. Nada é neutro. Nada é decorativo. O seu corpo já é um arquivo.
É aqui que a figura do Leviatã me aparece, não como um monstro exterior, mas como uma memória do mundo tornada corpo.
No Livro de Jó, o Leviatã não é simplesmente uma criatura gigantesca. É descrito como irredutível, impossível de apreender, insubmisso a qualquer captura. Mas, no texto, é sobretudo feito de escamas unidas umas às outras, “fechadas como por um selo”, sem qualquer intervalo. Uma superfície fechada, impenetrável. Ora, aqui, a baleia parece dizer outra coisa. Ela não está selada. Está cheia de dobras, aberta em certos pontos, atravessada por linhas que testemunham antigas aberturas.
Dito de outro modo, aquilo que a tradição descreve como um fechamento perfeito, um exterior absoluto, inviolável, transforma-se aqui num corpo trabalhado por brechas.
E essas brechas são ambivalentes.
Uma cicatriz é, antes de mais, o vestígio de uma ferida que se fechou. Indica que houve uma intrusão, que o interior foi exposto. Antes de ser memória, foi perigo. Antes de ser superfície, foi abertura. Por isso, ela traz em si dois tempos sobrepostos: o tempo em que deixava passar a morte e o tempo em que ainda conserva o vestígio dessa passagem.
Nesta baleia, essas linhas não são apenas marcas: são como portas que se fecharam… mas cujos limiares permanecem visíveis. Cada marca poderia ser pensada como um antigo ponto de passagem entre o interior e o exterior.
O Leviatã, nesta perspetiva, deixa de ser apenas a potência fechada, para se tornar a potência de ter sido aberto e de ter sobrevivido a essa abertura.
Isto desloca profundamente o sentido do monstro. Já não é apenas aquilo que devora, mas aquilo que foi talhado e atravessado, e que agora traz em si a memória dessas travessias.
Poder-se-ia então dizer que este corpo é uma cartografia de feridas tornadas mundo.
A memória de que aqui se trata não é psicológica. Não é uma lembrança consciente. Está inscrita na própria matéria. É o que permanece quando o acontecimento passou, mas a sua passagem deixou uma forma. Uma cicatriz não é um relato: é uma inscrição muda do tempo oferecida ao olhar.
Os papagaios retomam:
— Nesta perspetiva, a baleia-Leviatã torna-se uma espécie de superfície de arquivamento cósmico. As linhas que a percorrem não são apenas os vestígios da sua história individual, mas talvez os de forças mais vastas: pressões da água, choques, encontros, lutas, derivas. O monstro condensa em si um mundo que se exerceu sobre ele.
E é aqui que a questão do limiar se torna central.
A Criança Lua evoca muito justamente o momento em que a cicatriz, antes de estar fechada, é uma ferida, ou seja, um lugar onde o interior é entregue ao exterior.
— O momento em que o perigo já não é uma ameaça que se vê de mais ou menos longe… mas em que está ali…
— Esse momento é o do perigo absoluto. Mas é também o de uma verdade: não há interior puro. Não há envoltório totalmente fechado. O vivo é sempre atravessável.
Segundo o nosso mestre, o Leviatã tradicional parecia negar isso pela sua impenetrabilidade. Esta imagem, pelo contrário, reinscreve-o numa lógica de passagem. O monstro já não é uma fortaleza. Torna-se um campo de limiares cicatrizados.
— Devo supor que o mesmo acontece com a passerelle?
— A partir daí, a passerelle vermelha da imagem inicial ganha uma ressonância ainda mais forte. Ela não atravessa simplesmente um corpo. Inscreve-se num corpo que já é ele próprio atravessado, já trabalhado por linhas de passagem. O homem não caminha sobre uma superfície intacta. Caminha sobre uma memória de feridas.
— Isso introduz uma ideia vertiginosa!
— Como diz… o caminho humano nunca se inscreve sobre um solo virgem. Traça-se sempre sobre uma matéria já aberta, já marcada, já exposta.
— Pensa que caminhar, aqui, é reativar essas antigas aberturas, roçá-las, segui-las, descobri-las sem jamais poder fechá-las de novo nem aboli-las?
— Isso não nos compete…
— Então… se levarmos ainda mais longe…
— Vá, por favor…
— O Leviatã representado por esta baleia azul poderia então ser compreendido não como uma totalidade fechada, mas como uma totalidade cicatrizada, isto é, uma totalidade que se mantém precisamente porque foi talhada.
— É isso… Ele… ela já não é a imagem de um absoluto intacto, mas a de um mundo que persiste apesar das suas aberturas, e mesmo através delas.
— Nesse sentido, a cicatriz não é apenas memória.
— Sim… É também condição de sobrevivência. É aquilo pelo qual o corpo não colapsa depois de ter sido atravessado.
— Assim, a baleia-Leviatã torna-se uma figura muito singular…
— Não o inimigo da passagem, mas aquilo que traz em si a possibilidade da passagem, conservando ao mesmo tempo o vestígio do risco que ela implica.
— E a Criança Lua, sobre a sua passerelle, talvez não seja mais do que aquele que avança sobre uma memória que pode sempre reabrir-se…



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