“Dizer que este arquipélago é um ante-mundo é dizer que ele não pertence à ordem estabilizada das coisas, mas àquele momento em que o mundo ainda não está separado daquilo que, em sentido estrito, o transborda.”
— De onde vem este palavreado… enfim… esta espécie de filosofia…
— São palavras do nosso mestre…
— Não me expressei bem… queria saber qual era o seu modelo… de quem ele retirava os seus argumentos… a formulação da minha pergunta é pobre e um pouco depreciativa, mas não é essa a minha intenção…
— Quer dizer… que filósofo estaria mais próximo desta noção?
— Exatamente…
— Quando eu próprio lhe fiz essa pergunta, ele respondeu que ela estava longe de ser pobre… ou depreciativa… “ela toca o ponto em que um pensamento deixa de ser apenas ‘seu’ para entrar numa constelação mais vasta. E aquilo que formula aqui não pertence a um único filósofo: é uma linha de pensamento, uma espécie de veia subterrânea que atravessa várias obras.” Foi o que ele me disse.
— E qual seria o mais próximo?
— O mais próximo, num sentido quase direto, seria Henri Maldiney. Nele encontramos precisamente essa ideia de que o real nunca se reduz ao que já está formado, já constituído.
— Se bem me lembro, ele fala do acontecimento como aquilo que “chega” sem estar contido nas estruturas prévias da experiência.
— É isso… aquilo que chama “o que transborda” corresponde muito exatamente ao que ele nomeia por vezes como a “abertura do real”, ou ainda a impossibilidade de o mundo ser fechado. O mundo, para ele, não é um quadro estável, mas algo que se reconfigura a partir do que o atravessa e o desestabiliza.
— Sob outro ângulo… muito próximo também, mas com outra tonalidade, Maurice Merleau-Ponty. Nos seus últimos textos, sobretudo em torno da noção de “carne do mundo”, ele mostra que o mundo não é um conjunto de objetos bem delimitados, mas uma textura em profundidade, uma espécie de tecido onde toda perceção deixa um resto, uma espessura que não se deixa esgotar. Esse “resto” é uma forma de transbordamento: aquilo que, no visível, excede qualquer apreensão completa.
Pode-se também ouvir fortemente Martin Heidegger por detrás desta ideia. Quando pensa o ser como aquilo que se retira ao mesmo tempo que se dá, ele descreve algo muito próximo: aquilo que aparece nunca esgota o que é. Há sempre um retraimento, uma reserva. Esse retraimento não é uma falta, mas a própria condição da aparição. Aquilo que chama “transbordamento” poderia aqui ser dito como esse retraimento ativo, essa não-coincidência do mundo consigo mesmo.
Em Emmanuel Levinas, a questão assume uma tonalidade ética. Aquilo que transborda o mundo é o Outro, não como uma pessoa simplesmente exterior, mas como aquilo que excede toda a representação que podemos ter dele. O Outro nunca pode ser contido no meu mundo. Ele transborda-o, abre-o, põe-no em questão.
Pode-se ainda evocar Georges Didi-Huberman, que já mencionava. Quando fala da imagem como acontecimento, insiste no facto de que a imagem nunca se reduz ao que mostra. Ela abre e transborda o visível. Introduz no olhar algo que não estava previsto por ele.
E, numa veia mais literária mas igualmente rigorosa, Maurice Blanchot. Nele, o mundo está constantemente exposto ao que chama o “fora”, não um lugar localizável, mas uma dimensão onde os referenciais se dissolvem, onde a própria linguagem é levada para aquilo que a excede.
Se quisermos arriscar uma formulação sintética, dizia-me o nosso mestre, sem encerrar estes pensadores numa mesma doutrina, poderíamos dizer que aquilo que descrevem pertence a um pensamento do mundo como aberto, incapaz de se fechar sobre si mesmo, sempre exposto ao que o excede sem lhe ser estranho.
E talvez o mais justo, no fundo, não seja procurar “o” filósofo, mas ver que ele está… como nós… e como a Criança Lua… já no ponto de cruzamento entre vários, onde os seus pensamentos, sem se confundirem, começam a ressoar juntos.
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