mercredi 25 mars 2026

(12) A abracadabrante história da Criança Lua


 
“Admitamos que a literatura começa no momento em que a literatura se torna uma questão. Esta questão não se confunde com as dúvidas ou os escrúpulos do escritor. Se lhe acontece interrogar-se ao escrever, isso diz-lhe respeito; quer esteja absorvido pelo que escreve e indiferente à possibilidade de o escrever, quer nem sequer pense em nada, isso é o seu direito e a sua felicidade. Mas permanece isto: uma vez escrita a página, está presente nessa página a questão que, talvez sem que ele o soubesse, não cessou de interrogar o escritor enquanto escrevia; e agora, no seio da obra, aguardando a aproximação de um leitor—de qualquer leitor, profundo ou vão—repousa silenciosamente a mesma interrogação, dirigida à linguagem, atrás do homem que escreve e lê, pela linguagem tornada literatura.
Pode-se condenar como uma infatução esta preocupação que a literatura mantém consigo mesma. Por mais que esta preocupação fale à literatura do seu nada, da sua pouca seriedade, da sua má-fé, é precisamente esse excesso que lhe é censurado. Ela dá-se importância ao tomar-se como objeto de dúvida. Confirma-se ao desvalorizar-se. Procura-se: isso é mais do que deveria fazer.
Pois talvez seja daquelas coisas que merecem ser encontradas, mas não procuradas.”
 
Maurice Blanchot, De Kafka a Kafka, Folio, p. 11–12

 

 

– Você que viu esta imagem, o que Igniatius escreveu no seu caderno parece-lhe coerente?
– Coerente… sim…
– Parece ter algo a acrescentar?
– Sim… parece-me que ele… sem se enganar… passou um pouco… diria… ao lado de certos elementos.
– Quais?
 
 
– Veja… isolar as diferentes partes da imagem produz um efeito muito revelador. Aquilo que, na primeira imagem, podia fazer Igniatius hesitar—massa terrestre ou forma indecisa—aparece aqui com uma nova clareza: estamos diante de uma baleia, e mais precisamente de uma baleia azul, quase emblemática, cuja forma evoca ao mesmo tempo a potência marinha e uma presença arcaica.
Mas este reconhecimento não é apenas zoológico. Ter-lhe-ia permitido transformar profundamente a sua leitura do conjunto.
Antes de mais, a posição do corpo é decisiva. A baleia está inclinada como se estivesse suspensa num meio que, aos nossos olhos e aos dele, já não seria completamente líquido. A cauda, levantada para cima, não indica um simples movimento de nado: sugere uma torção, um basculamento. O animal não desliza no seu elemento; parece estar a mudar de regime de existência. Isso introduz imediatamente uma dimensão de surgimento, no sentido mais forte do termo: algo que não permanece no seu lugar, mas emerge ao atravessá-lo.
 
 
 
– Como pode saber tudo isso?
– Foi o nosso mestre que mo disse… devia suspeitar… Depois, o corpo desta baleia não é liso. É percorrido por estrias, cavidades, linhas internas que se assemelham menos a uma pele do que a uma espécie de cartografia. A baleia torna-se quase um território inscrito sobre si mesmo. Não se vê apenas um animal, mas uma espessura do mundo. Como se o mar e a sua memória, com o tempo, se tivessem dobrado nesta forma.
O olho, minúsculo mas muito preciso, desempenha um papel essencial. Não domina o corpo; está quase perdido nele. E no entanto atrai imediatamente o olhar. Este olho não olha de frente; está ligeiramente deslocado, como se observasse a partir de uma profundidade interior. Não é um olhar de predador, nem sequer um olhar expressivo no sentido humano. É um ponto de consciência mínima numa massa imensa. Isso cria uma tensão muito forte: um corpo quase inconsciente atravessado por um ponto de lucidez.
A escolha do azul-violeta é igualmente decisiva. Não é um azul marinho realista. É uma cor noturna, interior, quase mineral. Aproxima a baleia da noite, do sonho, do fundo. Afasta-a do simples registo naturalista para a fazer entrar num espaço simbólico. Poder-se-ia dizer que esta baleia é menos um animal do que uma figura de profundidade.
Se regressarmos agora à primeira imagem com este reconhecimento em mente, tudo se reconfigura. A “massa” da baleia deixa de ser apenas terrestre ou anfíbia; torna-se uma presença oceânica deslocada.
A passarela vermelha que atravessa o seu corpo ganha então um sentido ainda mais forte: já não é apenas uma ponte sobre um animal, é uma linha humana estendida sobre um mundo que, normalmente, deveria ser líquido, móvel, inabitável. A baleia, fora do seu elemento, torna-se uma espécie de solo instável, um fundo que não é fundo.
Pode-se ir mais longe. Em muitas tradições—da Bíblia com Jonas às mitologias marinhas, passando pela literatura moderna como em Melville—a baleia está ligada ao engolimento, ao interior, à experiência de ser capturado numa profundidade viva. Aqui, ela não engole. Está exposta. É oferecida à travessia. Isso inverte completamente o motivo. O interior tornou-se exterior. Aquilo que deveria conter torna-se aquilo que é atravessado.
Assim, a imagem já não mostra simplesmente um homem diante de um animal gigantesco. Mostra um homem sobre uma linha frágil, pousado sobre aquilo que poderia ser o interior do mundo virado do avesso.
Por fim, há algo de muito importante na simplificação do fundo (aqui branco). Ao retirar o cenário, a baleia surge como uma forma pura, quase como um signo. Isso confirma que, desde o início, ela não era apenas um elemento narrativo, mas uma figura estruturante, uma espécie de núcleo em torno do qual toda a imagem se organiza.
Poder-se-ia dizer, sem simplificar, que esta baleia não é simplesmente representada: é aquilo a partir do qual a cena pensa…
 
 
 
…ou aquilo que a Criança Lua está a pensar, sozinha nesta passarela entre mundos.
 
 

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