lundi 1 juin 2026

(92) Limites do Mundo

 

« Teve uma ideia magnífica, daquelas que sonharia transformar num livro? Não se apresse a executá-la; não é necessário, pois pode ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, outra pessoa terá a mesma ideia… e fará dela um uso perfeito.
Falo por experiência própria. Durante dezoito anos acalentei o projeto de escrever a história dos náufragos do Batavia. Reuni praticamente tudo o que se publicava sobre o assunto; depois viajei para as ilhas Houtman Abrolhos, local do naufrágio. Ao longo dos anos continuei a acumular notas, mas sem nunca me decidir a escrever a primeira página dessa célebre obra em gestação que, na imaginação cada vez mais sarcástica dos meus familiares, começou lentamente a adquirir uma dimensão mítica. De tempos a tempos, acontecia-me saber que um novo livro tinha sido publicado sobre o meu tema; ficava coberto de suor frio e corria para o ler, a tremer. Mas não, era apenas um falso alarme; rapidamente percebia, aliviado, que o autor tinha mais uma vez falhado o alvo, o que reforçava a minha falsa sensação de segurança. Uma ou duas vezes, contudo, senti o projétil passar muito perto, mas não soube tirar daí a devida lição.»

Simon Leys, Os Náufragos do Batavia


Lucian tomou subitamente a decisão de viajar para o Arquipélago. Julga que será assim que conseguirá decifrar o mistério contido nos desenhos e nas histórias que Igniatius lhe conta… E, para sua grande surpresa, em circunstâncias tão particulares, encontra-o ali… Um encontro extremamente cordial, aliás.
— Existe um mundo para além do nosso?
— Para o saber, teríamos primeiro de saber se o nosso tem limites…
— E se fosse esse o caso?
— Então, efetivamente, a questão colocar-se-ia.
— E qual seria a sua resposta?
— Creio que é difícil… se não impossível… imaginar tal coisa. Para começar, penso que teríamos de determinar aquilo em que acreditamos a partir do que poderia ser seguro… do que poderia ser incontestável e sobre o qual nos pudéssemos apoiar…
— E depois?
— Depois… infelizmente, não creio que estivéssemos muito mais avançados…
— Estaremos condenados a ser náufragos para a eternidade?
— Náufragos… talvez… mas a eternidade… está a ser bastante presunçoso… A nossa vida, tal como qualquer outra, é limitada… É certo que todos os dias podemos enviar algumas palavras, mas essas palavras encontrarão leitores?
— Nada é menos certo…
— E… se encontrarem leitores… serão esses leitores verdadeiros leitores?..
— Há poucos…

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