«O espectador, desejoso de uma construção subjetiva no comércio dos olhares, que nunca será idêntico ao comércio das coisas, é reduzido ao estado de consumidor de saberes e de objetos que não lhe são propostos sob o signo que os especifica: o desejo de ver estreitamente associado ao desejo de fazer e ao desejo de mostrar. A cultura é encarregada de preencher um vazio em vez de criar essa fome e essa sede que conhecem os viajantes do deserto que são os artistas. A cultura deveria definir-se como a reunião de todos os signos e de todas as formas que contribuem para fazer nascer um espectador no cruzamento dos inúmeros olhares que partilham um mundo tão detestável quanto saboroso. O espectador não pode ser o sujeito da consagração. É nesta circulação, que pertence à economia do desejo, que as operações de produção de imagens podem acompanhar e sustentar um sujeito na sua relação com os outros.»
Marie-José Mondzain, Homo spectator, Bayard
Onde Lucian, em plena viagem pelo Arquipélago, penetra nas cortinas avermelhadas de um circo em tudo semelhante àquele que tinha visto nos desenhos. Numa perspetiva extremamente incerta, tenta em vão explicar aquilo que indefinidamente se dobra e redobra sobre si mesmo. Apesar disso, com uma vitalidade surpreendente, relata estes acontecimentos e os pensamentos que eles suscitam numa carta a Félix.
Meu caro, muito estimado e agora tão distante colega,
Estava sozinho sob o chapitô. Sozinho… pelo menos segundo essa pobre medida humana que ainda acredita poder distinguir a sua própria presença da presença das coisas que a observam. Pois mal tinha atravessado as cortinas escuras senti que outro mundo começava, um mundo interiormente mais vasto do que todas as paisagens visíveis, um mundo onde o espaço me parecia respirar como um peito obscuro.
O circo não repousava sobre nenhuma terra verdadeira.
Ou melhor: a própria terra parecia flutuar.
Sob as vigas, sob os cordames, sob os grandes panos vermelhos que desciam das alturas como fragmentos de crepúsculo rasgado, eu percebia o Arquipélago. Não a ilha reduzida que um olhar comum poderia entrever nas sombras do cenário, mas a imensidão vulcânica da qual ela provinha. Então, no meu espírito, os rochedos ergueram-se. Cresceram desmesuradamente. Tornaram-se falésias basálticas, muralhas corroídas pelas tempestades, massas surgidas das profundezas primordiais do globo, ainda atravessadas pelos sopros subterrâneos da criação.
Vi promontórios abertos pelos séculos. Vi escoadas de lava arrefecida suspensas sobre os oceanos. Vi montanhas vermelhas erguidas como colunas de um mundo anterior ao homem.
E o próprio circo parecia agora construído sobre os seus cumes, como se povos esquecidos tivessem querido suspender um teatro frágil sobre o abismo…
Foi então que as chamas me apareceram.
Subiam lentamente entre as estruturas do chapitô com uma majestade terrível. Longas, pálidas, quase brancas ao nascer, torciam-se nas alturas como almas procurando uma saída através das trevas do mundo. Ao alcançarem as velas superiores, desfaziam-se em fumo. Não um fumo vulgar, mas um vapor imenso, semelhante às nuvens que se elevam dos vulcões quando a chuva da montanha parece meditar nas profundezas do fogo.
E em baixo o mar combatia.
Porque o mar estava ali.
Ouvia-o mais do que o via.
Um mar pesado, subterrâneo, antigo, fazendo rolar as suas vagas espiraladas contra a base das chamas. Elas elevavam-se contra o fogo como se o próprio oceano recusasse essa ascensão luminosa. Cada vaga parecia querer recuperar para o abismo aquilo que tentava libertar-se dele.


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