vendredi 12 juin 2026

(109) Ver aquilo que se quer dizer


Onde existe um território intermédio entre a aparição e a compreensão... território onde precisamente nascem as figuras.


Caderno de Félix

Recentemente detive-me numa afinidade cuja estranheza não tinha ainda medido. As palavras teatro e teoria, que hoje tudo parece opor, pertencem, contudo, à mesma família. Ambas remontam a uma antiga ideia do olhar.
O teatro era, antes de mais, o lugar a partir do qual se observa. A teoria, o próprio ato de contemplar. Na sua origem, não designavam portanto nem uma arte nem um sistema de explicação, mas uma certa maneira de assistir àquilo que aparece.
Talvez seja por isso que estas duas palavras, apesar do seu aparente afastamento, continuam discretamente a fazer eco uma da outra. O teatro mostra. A teoria procura compreender aquilo que é mostrado. Um expõe figuras; a outra tenta discernir as relações que as unem.
Mas talvez esta distinção não seja tão clara quanto parece. Uma teoria organiza conceitos como um encenador dispõe os seus atores. O teatro, por sua vez, não cessa de propor uma certa visão do mundo, por vezes mais profunda do que os discursos que pretendem explicá-lo.
Começo a suspeitar que ver e compreender não são duas operações inteiramente distintas. Existe entre ambas uma região intermédia onde algo aparece antes de receber um sentido e onde o próprio sentido apenas se forma a partir daquilo que apareceu.
É provavelmente nesta região incerta que os dois papagaios gostam de instalar as suas conversas.


– Esta fórmula é, ela própria, notável.
– De que fórmula se trata?
– Quando diz: «Vejo o que quer dizer.»
– Eu não disse nada!
– Imagine! Ninguém imagina que esteja realmente a olhar para alguma coisa com os olhos. Contudo, o verbo verpermanece.
– Poderíamos dizer: «Compreendo o que quer dizer.» Mas nem sempre o fazemos. Como se a compreensão conservasse a memória de uma operação mais primitiva: fazer aparecer.
– Talvez essa seja uma das razões profundas da afinidade entre teatro e teoria.
– Que afinidade?
– Ambos pertencem a um domínio onde compreender significa, antes de mais, tornar visível.
Aliás, quando algo se torna inteligível, falamos de esclarecimento, de luz, de evidência.
– Uma ideia é obscura ou luminosa.
– Um problema esclarece-se.
– Uma demonstração «lança luz» sobre algo.
– Toda a nossa língua associa o conhecimento à visão. Mas a fórmula «Vejo o que quer dizer» contém uma subtileza suplementar.
– Qual?
– Não diz: «Vejo aquilo que diz.»
– Não é exatamente assim... mas continue.
– Diz: «Vejo o que quer dizer.»
Por outras palavras, aquilo que se torna visível não é apenas a fala em si mesma, mas a intenção que a habita.
– Assim, pretendo perceber algo que não está diretamente dado nas palavras.
– E talvez seja aí que a teoria reencontra o teatro.
– No teatro vemos gestos, rostos, deslocações. Contudo, aquilo que muitas vezes procuramos ver é o que se desenrola por detrás deles.
– Compreendo... Do mesmo modo, numa teoria vemos conceitos, esquemas, raciocínios. Contudo, aquilo que procuramos entrever é uma estrutura mais profunda que apenas se deixa vislumbrar através deles.
– Félix poderia até anotar nos seus cadernos que as histórias funcionam frequentemente assim.
– Lucian acredita ver desenhos.
– Igniatius acredita ver histórias.
– Félix acredita ver explicações.
– Mas cada um descobre progressivamente que está sempre a olhar para outra coisa além daquela que julgava estar a observar.
– Como no teatro.
– Como numa teoria.
– Como num espelho.
– Julga-se ver o objeto. Depois percebe-se que se está a olhar para uma aparição.
– E por vezes, nos momentos mais estranhos, já não se sabe muito bem se vemos porque compreendemos ou se compreendemos porque vemos.
– Talvez seja nessa hesitação que nascem aquilo a que Félix chama figuras...
– Elas aparecem antes de serem compreendidas...
– ...e continuam muitas vezes a ser contempladas muito depois de termos deixado de acreditar que as compreendemos.

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