Cada vaga erguia-se como uma montanha e desabava num abismo. Já não eram simples lâminas de água, mas caçadas de titãs, sabres de espuma brandidos pelo Invisível. O sal voava no ar como uma areia de apocalipse, ferindo o espaço com uma mordedura ácida. O oceano, esse gigante de mil braços, lutava contra nada, contra tudo, talvez contra Deus.
O céu, tenebroso de um negro de tinta, abria-se por instantes numa luz de além-túmulo. Relâmpagos, primeiro longos e silenciosos, depois estalando como chicotes celestes, vinham rasgar a sombra com as suas garras brancas. Cada clarão parecia gravar uma maldição na fronte do mundo. Depois chegava o trovão, que não rolava: caía e despedaçava-se. Era uma queda de bigornas no vazio, uma voz de abismo dirigindo-se ao nada.
E, em redor, o universo calava-se.
Nenhuma ave, nenhum sopro da terra, nenhum murmúrio vinha responder a semelhante desmesura. A tempestade reinava sozinha, sem testemunha, sem eco, soberana. Passava, imensa, devastadora e sublime, como passam as cóleras de um deus sem nome.
Foi então que a Criança renasceu.
Excerto do Diário de Lucian
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Entre dois abalos mais ou menos radicais, os habitantes do Arquipélago, hoje conhecido pelo nome de Terra Archipelago, entregam-se involuntariamente ao grande jogo das aparições e dos desaparecimentos. Foi assim que, num desses interlúdios perigosos e tumultuosos, Pinóquio, o Outro, surgiu no fundo de uma vaga gigantesca... em vários pedaços...
— Não vedes aquela marioneta desarticulada, e até decapitada, que flutua no seio dos remoinhos? Não será esse o Pinóquio de quem outrora ouvi falar tão longamente?
— Acreditais que possamos socorrê-lo?
— Por um lado, não sei se o destino assim o quer ou se lhe seria preferível — e até mais proveitoso — conseguir sair dessa situação pelos seus próprios meios...
— E, por outro lado?
— Por outro lado, tendo em conta a nossa própria condição... não sei sequer se seríamos capazes de o fazer.
— Havemos então de esperar sem nada fazer?
— Receio que essa seja a única solução... De qualquer modo, bem vedes que, nestes lugares desolados e por razões obscuras, dele restam apenas alguns elementos perfeitamente dispersos, os quais parecem estar muito longe de poder formar um conjunto completo ou sequer viável. Com um pouco de sorte, quando a natureza deste lugar tiver recuperado a sua própria natureza e nós próprios tivermos voltado a encontrar terreno firme, poderemos reencontrá-los, trazidos pelas ondas para uma praia ou para algum rochedo benevolente, de uma forma muito mais natural.
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