Continuação da vera causa
Félix refletia sobre todas aquelas informações que lhe chegavam através de Lucian, que, a julgar pela forma e pelo conteúdo das suas cartas, viajava num profundo desordenamento. Nenhuma das cartas que recebia era verdadeiramente a continuação da anterior... como se o tempo jogasse às cartas, distribuindo-as depois de as ter baralhado e deixando-lhe a tarefa de tentar reuni-las em certas sequências lógicas.
É o jogo, dizia para si mesmo. E o jogo, naquele dia, mostrava-lhe um Lucian muito diferente do do dia anterior... que talvez fosse o do dia seguinte...
Lucian falara disto numa das cartas anteriores que recebi muito tarde, certa noite... como se tivesse falado quase fora de tempo... como se se tratasse de uma verdadeira conversa.
Félix recordava-se sobretudo da fadiga da sala, dos candeeiros baixos, dos cadernos abertos sem ordem aparente, das folhas cobertas de esboços onde já surgiam certas silhuetas ainda sem nome.
Parecia-lhe também que Lucian abordara o assunto daquela maneira particular que por vezes lhe era própria: começar como um homem que formula uma observação secundária e, pouco a pouco, afundar-se em algo que lhe dizia muito mais respeito do que desejava admitir.
Dissera que existia uma diferença considerável entre uma ideia que «funciona» e uma ideia que possui uma realidade própria.
Muitas hipóteses, dizia Lucian, assemelham-se a andaimes construídos em torno de um único problema. Explicam exatamente aquilo que devem explicar. Nada mais. São ajustadas como próteses intelectuais... foram essas as palavras que utilizou. Poderíamos deslocá-las, substituí-las, inventar outras. A sua eficácia permanece local.
Depois tomara como exemplo os antigos astrónomos.
Alguns sistemas descreviam corretamente os movimentos visíveis dos planetas, mas exigiam tantas correções, tantos círculos acrescentados a círculos, tantos ajustamentos sucessivos, que acabavam por revelar a sua fragilidade. Mantinham-se de pé... com um certo equilíbrio... mas com dificuldade.
Pelo contrário, certas hipóteses possuem uma estranha capacidade de expansão. Parecem abrir por si mesmas passagens para outros fenómenos.
Lucian insistira neste ponto com uma lentidão invulgar.
Segundo ele, quando uma ideia começa a produzir consequências imprevistas, algo muda no seu estatuto. Deixa de ser uma simples ferramenta descritiva. Torna-se uma força organizadora.
Falou então de Newton, mas menos como físico do que como leitor do mundo.
O que fascinava Newton, dizia ele, não era apenas compreender porque cai uma maçã. Muitos poderiam imaginar uma explicação para a queda dos corpos. O que verdadeiramente transformou o seu pensamento foi suspeitar que o mesmo princípio silencioso atuava também na dança dos planetas, nas marés, no movimento dos corpos celestes mais distantes...
O que, curiosamente, me fez pensar nele... e em Igniatius... antes de voltar a escutar.
A grandeza de uma causa não reside apenas na sua precisão, mas na sua capacidade de aparecer noutros lugares além daquele onde foi descoberta.
Lucian fez então uma pausa antes de acrescentar algo que, naquele momento, compreendi apenas pela metade.
Disse — e cito-o — que certas ideias se assemelham a nascentes subterrâneas. Descobrimo-las num ponto preciso do terreno; mais adiante surge uma outra ressurgência, depois outra ainda. De cada vez a água parece diferente, mas algo na sua temperatura, na sua cor ou no seu sabor indica que provém da mesma corrente invisível.
Parece-me mesmo, prosseguiu ele, que o espírito humano reconhece instintivamente essas estruturas antes de conseguir demonstrá-las por completo. Talvez seja por isso que certas hipóteses exercem uma espécie de fascínio. Dão a impressão obscura de que regiões separadas do real começam subitamente a comunicar entre si.
Depois, quase sem dar por isso, Lucian deslizou do domínio científico para um terreno muito mais ambíguo.
Disse que também existem «causas verdadeiras» na vida psíquica.
Certas interpretações analíticas permanecem superficiais porque explicam um comportamento isolado sem modificar o resto da paisagem interior. Produzem uma compreensão local. Uma articulação provisória. Nada muda verdadeiramente.
Mas acontece por vezes que uma intuição transforma subitamente várias zonas da existência ao mesmo tempo.
Sonhos antigos adquirem um novo significado. As recordações tornam-se legíveis. Certas repetições deixam de parecer acidentais.
Imagens até então dispersas começam a gravitar em torno de um mesmo centro invisível.
Foi então que Lucian utilizou uma fórmula que me marcou sem que eu soubesse porquê:
"Uma causa real deixa vestígios em territórios que ainda ignoram que dependem dela."
Depois retomou os seus cadernos, quase embaraçado por ter falado tanto.
Mas antes de se calar completamente, acrescentou algo mais estranho ainda.
Disse que as grandes figuras literárias obedecem por vezes a esta mesma lógica.
Uma personagem verdadeira, segundo ele, nunca permanece encerrada na função inicial para a qual o seu autor a concebeu. Começa a contaminar outras regiões da narrativa. Atrai imagens. Modifica o tom das cenas em que aparece. Deforma até as personagens vizinhas.
Depois, a partir de certo momento, parece adquirir uma densidade tal que já não sabemos muito bem se o escritor continua a dirigi-la ou se apenas tenta seguir as consequências da sua presença.
Lucian sorriu então, mas foi um sorriso muito breve.
"As personagens secundárias morrem com a sua utilidade. As outras tornam-se causas."
Félix lembrava-se perfeitamente dessa frase.
O que só agora compreendia, anos mais tarde, era que Lucian provavelmente já não falava nem de Newton nem de literatura.
Talvez estivesse já a falar dos desenhos. Talvez até de Igniatius. Ou de uma figura ainda sem nome que procurava já, na obscuridade dos cadernos, a futura forma do Menino Lua.
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