"Um homem que dorme mantém em círculo à sua volta o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Consulta-os instintivamente ao despertar e neles lê, num segundo, o ponto da terra que ocupa, o tempo que decorreu até ao seu despertar; mas as suas fileiras podem confundir-se, romper-se. Que, pela manhã, depois de alguma insónia, o sono o surpreenda enquanto lê, numa posição demasiado diferente daquela em que adormeceu, basta que levante um braço para deter e fazer recuar o sol; e, no primeiro minuto após acordar, não saberá as horas, imaginará que acabou de se deitar. Que adormeça numa posição ainda mais deslocada e divergente, por exemplo depois do jantar, sentado numa poltrona, e então a perturbação será completa nos mundos saídos da sua órbita; a poltrona mágica fá-lo-á viajar a toda a velocidade através do tempo e do espaço e, ao abrir as pálpebras, acreditará estar deitado, alguns meses antes, numa outra região."
Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido
– Leitor imprudente, tu podes vir a este mundo, e eu não posso, sozinho, vir ao teu. Tem cuidado para não te tornares, como eu, prisioneiro deste... ou do outro. Este mundo ao qual pertenço revela-se a cada página e desaparece assim que ela se fecha e uma nova surge...
Por um instante, naquela clareira, junto da árvore gigantesca, o Menino Lua... ou talvez Dom Cenoura... julgou ver avançar uma carroça antiga puxada por um burro. Mal teve tempo de voltar a cabeça, o objeto obscuro e o animal tinham desaparecido.
Teria essa imagem suscitado uma recordação, ou teria sido a recordação a fazer emergir a imagem?
E, coisa mais inquietante ainda... talvez o mesmo acontecesse com ele.
Como e porquê chegara o Menino Lua àquela clareira... situada bem no centro do circo... deslocando-se de ilha em ilha?
Nada sabia.
Como em cada dia, esquecia o anterior. Já não fazia perguntas.
Mas isso era sem contar com aquelas que tentava em vão evitar e que, dia após dia, cintilavam junto aos seus ouvidos. Não eram palavras, mas pequenas luzes dançantes. Não possuíam mais presença física do que ele próprio, que, sem palavras para o dizer, não existiria.
Tinham passado longos anos... durante os quais crescera.
Sem que o soubesse e, mais ainda, sem saber onde ou quando isso acontecera, já não se chamava Menino Lua.
O seu nome mudara.
Dom Cenoura era agora o seu novo nome... ou pelo menos era assim que o chamavam.
Um nome que não escolhera nem aceitara, mas que tinha de carregar se quisesse obter resposta para aquela pergunta que girava em torno da sua cabeça, noite e dia, como um astro governado pelo seu sol.
Submetido aos acasos de um espírito que esperava não ser demasiado atormentado, instalado à força numa narrativa que se esforçava por infletir, Dom Cenoura põe um pé diante do outro como uma letra depois da outra e, palavra após palavra, tenta valentemente ler aquilo que, no pó das histórias, se escreve e se apaga passo a passo...
2%20copie-.jpg)
Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire