samedi 6 juin 2026

(100) Apenas o tempo de virar a página.

 


Numa das ilhas da Terra Archipelagos, fustigada pelas tempestades e parecendo, de forma quase perfeita, um espelho erguido, Lucian, tal como a Criança-Lua antes dele, enfrenta o oceano das nossas incertezas. Nesse espelho ergue-se orgulhosamente um teatro de fortuna, improvisado, sim, mas vivo, povoado por fragmentos e fábulas, onde o próprio vento se torna personagem... ou autor de uma palavra errante através dos mundos.
Em certas encostas voltadas para leste, onde a luz permanece por mais tempo, instalam-se plantas pioneiras. Um olhar atento pode distinguir minúsculas figueiras-marinhas, aloés esguios de folhas carnudas bordadas por espinhos cor de cobre e, rente ao solo, musgos negros que parecem absorver a luz em vez de a refletir... antes que... um instante depois, mal haja tempo de virar a página... tudo tenha desaparecido.



Enquanto Lucian viaja pelo Arquipélago em busca dos vestígios daqueles que o precederam, Félix reencontra nos seus cadernos a continuação de uma carta de Lucian que acabara por esquecer.

Por vezes penso que certas figuras nascem antes mesmo dos seres que um dia as irão carregar.
Já vê o perigo de um pensamento destes... e eu próprio o entrevejo... Mas ouça-me até ao fim. Quando uma figura aparece verdadeiramente, produz à sua volta uma série de coerências que parecem retrospetivas. De repente, antigas recordações tornam-se legíveis. Certos encontros adquirem outro significado. Imagens isoladas aproximam-se umas das outras como fragmentos de metal atraídos por um mesmo íman escondido sob a mesa.
É precisamente isso que me perturba nos desenhos.
No início, julgava que representavam alguma coisa. Hoje começo a recear que produzam alguma coisa. Compreende a diferença?
A primeira hipótese pertence ainda à ordem do olhar. A segunda diz respeito à ordem das causas.
E se certas imagens não fossem apenas reflexos, mas agentes?
E se possuíssem esse poder silencioso das verae causae de que falava Herschel?
Já o ouço protestar que estou a deslizar perigosamente para o simbolismo ou para a superstição. Talvez. Mas os antigos sabiam, por vezes, reconhecer aquilo que a nossa época se recusa até a nomear: certas formas transformam o real simplesmente porque reorganizam a atenção, a memória, a expectativa e o desejo.
Afinal, uma nação inteira pode morrer por uma bandeira que não passa de um pedaço de tecido.
Um homem pode atravessar um continente por causa de um rosto visto uma única vez.
Uma infância pode ser governada durante cinquenta anos por uma frase ouvida numa escada ou atrás de uma porta.
Porque haveriam as figuras de ser menos reais do que as pedras?
Irei ainda mais longe.
Começo a suspeitar que as personagens mais poderosas não são inventadas pelos seus autores no sentido ingénuo da palavra. Elas emergem. Condensam-se lentamente através de leituras, memórias, medos, cópias, vozes ouvidas por detrás das portas, sonhos cuja propriedade ninguém reivindica verdadeiramente.
Depois, um dia, alguém lhes serve de passagem.
Talvez esse seja o verdadeiro escritor: não aquele que cria, mas aquele que deixa entrar.
Fico por aqui. Não porque já não tenha nada a dizer, mas porque certas ideias se tornam mais perigosas à medida que são formuladas com clareza...
E além disso já é muito tarde. O mar bate contra as falésias como uma imensa respiração negra.
Os desenhos, embora continuem voltados para a parede, dão-me ainda assim a absurda impressão de que continuam a observar-me.
Lucian

Félix... vou fazer-lhe uma estranha confidência.

Aucun commentaire: