lundi 15 juin 2026

(112) A abracadabrante história da Criança Lua

 "O funâmbulo é uma ilha, que se lembra dos continentes e os saúda de longe."

Michaël Ferrier, Memórias do Ultramar


Caderno de Lucian

No primeiro dia da minha chegada, o mar dormia, vasta besta obscura, quando um terrível estremecimento o percorreu. Das profundezas dos céus elevou-se um suspiro, longo, rouco, quase sacrílego, e o horizonte, esse traço de união entre o infinito e o abismo, apagou-se sob um peso de sombra. Enquanto o vulcão desmoronava, a tempestade ergueu-se. Tudo começou pelo vento... não era aquele vento leve que acaricia as dunas, mas um sopro grave, antigo, vindo das entranhas do mundo. Já não se limitava a agitar as vagas; arrancava-as de si mesmas e enchia-me de terror. Rodopiando, uivava e golpeava como um arcanjo decaído, rebelando-se ainda impregnado do fogo do vulcão. Fendia o vazio com asas de cinza.
Dir-se-ia que o próprio ar se tinha transformado em cólera, em poder nu.
Quanto ao mar, não era mais do que um grito.
Cada vaga erguia-se como uma montanha e desabava num abismo. Já não eram lâminas de água, mas caçadas de titãs, sabres de espuma empunhados pelo Invisível. O sal voava no ar como areia de apocalipse, mordendo o espaço com um travo ácido.
O oceano, esse gigante de mil braços, lutava contra nada, contra tudo, contra Deus talvez.


Lucian viaja sobre os rastos de Igniatius, do Menino Lua e de Pinóquio o Outro.
Se a viagem é penosa, atravessando tempestades e os humores violentos dos elementos, beneficia também de calmarias tão súbitas quanto repousantes.
Paradoxalmente, confrontado com tais manifestações, tornava-se cada vez mais forte.
Remontando à origem das coisas, encontrou um pequeno cão azul com quem entrou em diálogo, sem se preocupar minimamente com o facto de isso poder parecer singular e sem saber que lugar ele poderia ocupar na narrativa... se é que havia algum lugar a ocupar.
– Não gostaria de parecer insolente, caro Lucian, disse o pequeno cão azul, mas, como pode constatar, o tempo joga contra si nestas paragens. Se acredito nos meus olhos, já perdeu aqui a sua camisa... depois de já ter perdido o casaco e o chapéu... e, certamente, o seu caminho. O que me leva a esta questão: que mais poderá ainda perder... e como vê a continuação da sua missão... se é que ainda existe uma missão?
– Surpreende-me ouvi-lo tão pessimista, respondeu Lucian. O senhor, que, se devo acreditar no que me ensinou, possui o dom de guiar... e, por isso mesmo, de ver para além daquilo que para nós é apenas o presente.
– Lembre-se: tudo muda constantemente nesta Terra Archipelago de contornos incertos. Assim, aquilo que hoje é, amanhã já não será... e quem pode saber, com ou sem casaco, o que poderá acontecer?


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