Onde Lucian, em plena viagem pelo Arquipélago, após ter penetrado nas cortinas avermelhadas de um circo em tudo semelhante àquele que vira nos desenhos, se confronta com uma perspetiva profundamente incerta. Tenta em vão explicar aquilo que incessantemente se dobra e redobra sobre si mesmo. Apesar disso, com uma vitalidade surpreendente, relata estes acontecimentos e os pensamentos que eles suscitam na continuação de uma carta dirigida a Félix.
Meu caro, muito estimado e agora tão distante colega,
Cada vaga parecia querer recuperar para o abismo aquilo que tentava escapar-lhe.
Longe de mim acreditar que eu próprio fosse presa desses abismos incessantes, ou que fosse minimamente o seu alvo, ou ainda que tivesse sido tentado a libertar-me deles. Muito pelo contrário...
Assim, todo o espetáculo oscilava entre duas potências primordiais.
O fogo queria subir.
O mar queria retomar.
E entre ambos surgia aquela pequena silhueta: Pinóquio o Outro.
Nunca uma criatura me pareceu tão frágil.
Nunca uma presença me pareceu tão grande.
Surgia das rochas vermelhas como um pensamento nascido da própria pedra. O seu corpo estreito, quase levado pelo vento interior do chapitô, mantinha-se suspenso num equilíbrio tão precário que o olhar hesitava constantemente entre o voo e a queda. Um pé tocava ainda a ilha. O outro já procurava a corda.
Essa corda!
Subitamente contemplei-a com um novo espanto. Pois não estava apenas estendida sobre o vazio: vinha do próprio passado da criatura que nela se aventurava. Percebia-se que outrora servira para o puxar, para o reter, para o mover segundo vontades alheias. Fio de marioneta. Linha de constrangimento. Servidão suspensa nas alturas do circo.
E eis que agora ele caminhava sobre ela.
Aquilo que outrora o manipulava tornava-se caminho.
Aquilo que o escravizava tornava-se passagem.
Então compreendi que ele não procurava apenas atravessar um abismo. Tentava sair de uma antiga condição de si próprio.
Todo o chapitô gemia à sua volta.
As grandes telas vermelhas palpitavam como órgãos gigantescos. As vigas estalavam com a lentidão solene das coisas imensas que começam a ceder sob o seu próprio peso. Nada estava ainda destruído.
Mas tudo já desaparecia.
Sim... o circo morria.
Não na imobilidade de uma ruína antiga, mas no próprio movimento da sua existência. Desfazia-se enquanto continuava de pé. Cada corda vibrava como se conhecesse o seu próprio esgotamento. Cada vela parecia prestes a regressar às profundezas marinhas de onde fora retirada.
E eu, único espectador sob aquela abóbada viva, sentia com terror que a minha presença completava misteriosamente esse desaparecimento.
Como se ver fosse já participar no desmoronamento.
Então uma visão ainda mais vertiginosa atravessou o meu espírito.
E se todo aquele circo tivesse sido erguido no ventre do Leviatã?
Tudo se tornou subitamente imenso por dentro.
As chamas pareciam respirações subindo por uma garganta cósmica. As vagas batiam como um coração marinho contra as profundezas do mundo. Os cordames tornavam-se fibras, tendões, nervos de uma criatura mais antiga do que os próprios continentes.
O circo já não era um edifício.
Era um ventre.
Um ventre primordial.
O próprio lugar onde as formas chegam ao mundo antes de possuírem um nome.
E Pinóquio o Outro avançava ali, sobre essa corda suspensa entre a servidão e o nascimento, enquanto o fogo continuava a subir e o mar continuava a tentar recuperar aquilo que procurava escapar às suas profundezas.
Nunca o silêncio foi tão grande.
Nunca um espetáculo foi tão terrível.
Pois não representava a catástrofe.
Era a própria catástrofe a tornar-se consciência.

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