jeudi 25 juin 2026

(124) A abracadabrante história da Criança Lua


« Não é o mundo que descrevo. Não é a verdade. É uma imagem, uma visão, uma composição. Mal comecei a nomear uma coisa, já a desfigurei. Porque as palavras não são as coisas; são as sombras dos gestos, os restos da luz. E, no entanto, não tenho senão isto: esta rede frágil, enganadora, deslumbrante. O que dou a ver não é o que é, mas aquilo que as palavras fazem existir. Enquanto outros julgam calar-se para escutar o real, eu falo para dizer que não fazemos senão inventar. O mundo nunca se dá; ele conta-se.»

Claude Simon, As Geórgicas

Se acreditarmos nos relatos registados nos seus inúmeros cadernos, o mundo de Igniatius é povoado por criaturas que ele qualifica de surgentes e que, segundo afirma, o interpelam constantemente. Não apenas o questionam, mas exigem-lhe respostas. Assim acontece com Pinóquio o Outro, dirigindo-se a Igniatius...

— O que resta de um mundo quando se tem medo de sonhar nele?
— Porque essa pergunta?
— Alguém assinou um artigo rigoroso, informado, mas de uma severidade tão metódica que parece esquecer aquilo que as palavras...
— Que palavras?
— As minhas... as vossas... as nossas... podem tocar, não para além do real, mas no coração ardente da sua perceção.
— De que fala o autor desse artigo?
— Acusa-nos de uma espécie de «estetização do caos»!
— Isso deixa-me perplexo. Será necessário reduzir sempre o impulso, que poderíamos chamar poético, a uma manobra ideológica? Será trair a história humana deter-se, por alguns instantes, numa ilha nua, virgem de discursos, ali onde a rocha fala à carne?
— O texto que ele acusa de apagar as presenças humanas nada mais faz do que sondar o antes.
— O antes de quê?
— O antes da civilização, o antes da palavra, o antes do julgamento.
— Será um crime imaginar um mundo sem nós, não para nos excluir, mas para melhor compreender aquilo que a nossa chegada modifica?
— A rocha não é aqui uma utopia; é uma hipótese de escuta... e, quanto à sua leitura, considero-a... fria. Terrivelmente fria. A eternidade não é uma fantasia do esquecimento: é uma tensão. Uma fenda mantida aberta entre o mineral e o luminoso. Não é o esquecimento do humano; é a possibilidade do humano.
— Certamente, a vigilância é louvável, mas resseca o solo antes que ele possa florescer. Ele censura o texto pelo seu silêncio? Talvez não o tenha habitado suficientemente.


— Quem é aquele?
— Não vejo nada...


— Creio que... lá ao fundo dessa estranha gruta se encontra aquele que escreveu o texto de que falávamos há pouco... Igniatius seria o seu nome...
— E o outro?
— Olhai e escutai como sabe responder...
— Não o reconheceis?
— Será Pinóquio o Outro?
— Talvez... mas o outro de quem?
— Não sei... não faço ideia...
— A quem se dirige ele?
— Àquele que o criticou...
— Fazei silêncio... Pinóquio o Outro está a falar!
— Falais com chama, e reconheço no vosso estilo esse encanto dos geógrafos da alma, daqueles que desejam escutar a rocha como quem lê um poema. Muito bem. Mas permiti-me responder-vos com uma franqueza que pretendo cortês: romantizais a erosão. Quando falais de uma «hipótese de escuta», não ouço senão um suspiro lírico, encantador sem dúvida, mas ofuscante. Aquilo a que chamais «o antes», essa ilha sem nome nem memória, não é um lugar neutro: é uma ficção construída, um artifício onde o real foi cuidadosamente apagado para melhor contemplar uma suposta essência do mundo. Ao pretenderdes sair da linguagem para «escutar a rocha», esqueceis que essa rocha já foi narrada, enquadrada, estilizada. Não é o mundo que descreveis: é um teatro mineral.
Quanto a Rimbaud, que brandis como um talismã, não o considero frio, mas trágico. «A eternidade é o mar misturado com o sol», dizeis vós? Muito bem. Mas olhai mais de perto: isso dura apenas um instante, uma colisão, uma iluminação. Vós vedes aí uma génese; eu ouço um desaparecimento. A eternidade, nessa frase, é tão fugaz quanto um sonho geológico.
Não digo que não se deva sonhar. Digo que é preciso saber de onde se sonha e a que preço. As vossas palavras por vezes maravilham-me, mas persisto: é necessário reconhecer os mitos que se repetem. Caso contrário, acabamos por confundir a lava com o leite... de uma ama que nunca tive...


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