« Só amanhece o dia para o qual estamos despertos. Ainda há mais dia por nascer. O próprio sol não passa de uma estrela da manhã.»
Thoreau, Walden
Carta de Lucian a Félix
Veja, Félix, nestas paragens selvagens é preciso mergulhar profundamente no tempo e levantar-se muito cedo, muito antes de as primeiras árvores erguerem as suas abóbadas verdes sobre os continentes, muito antes de os grandes répteis percorrerem a terra ainda jovem. Nessa época, que não se mede em séculos mas em milhões de anos, o arquipélago não passava de um suspiro sob a crosta do mundo, um estremecimento esquecido na espessura do manto terrestre. E o mesmo acontece comigo. Nas numerosas pregas deste manto demasiado grande que se tornou o meu, estremeço quase sem cessar... o que me leva constantemente a pensar nos dias que ainda virão.
Pensar verdadeiramente pode desfazer as seguranças habituais. Pode desalojar-nos, derrubar certezas, fazer vacilar a identidade que julgávamos imutável. Pensar nem sempre é confortável... bem o sabe. Pensar toca o nascimento, a perda, a morte.
E, no entanto, há neste texto uma promessa. Ele diz também: «Pode-se renascer. Pode-se recomeçar a própria vida.» Isso significa que esta descida à origem não é apenas destrutiva. Ela pode igualmente abrir um novo começo. Ao atravessarmos algo de muito antigo, de muito obscuro, podemos reencontrar uma forma de vida mais intensa, menos aprisionada nos automatismos do grupo.
Quando ele escreve: «O primeiro mundo pode avançar o seu focinho para dentro do segundo mundo», a imagem é quase animal. O primeiro mundo é o mundo arcaico, primitivo, anterior às palavras, anterior às regras sociais. O segundo mundo é o mundo organizado, civilizado, falado, regulado. O primeiro não desapareceu. Continua a avançar a cabeça para dentro do segundo. Continua a atravessá-lo. O passado mais remoto não está morto. Continua a subir e a ressurgir.
É o que ele exprime ainda mais simplesmente a seguir: «O outrora ainda emerge.» O outrora é o antigamente, o muito antigo. Mas nele, como no Menino Lua, não se trata de um passado encerrado atrás de nós. É um passado que insiste em regressar e que aflora continuamente no presente. Aquilo que há de mais antigo em nós é frequentemente também aquilo que surge de forma mais espontânea: um medo súbito, um desejo, uma imagem, uma emoção sem explicação, uma atração pela noite, pela floresta, pelo mar, por um rosto, por uma música. O mais antigo não foi abolido. Continua a trabalhar.
É aqui que surge a frase final sobre a natureza: «A natureza é a melhor das coisas visíveis.» Isto significa que, entre tudo o que vemos, a natureza é talvez aquilo que ainda deixa aparecer mais claramente essa origem mais antiga. Porquê? Porque não é inteiramente fabricada pelo homem. Ela surge. Cresce. Jorra. Transborda. Vem de um fundo mais antigo do que as nossas construções.
Quando ele acrescenta que o seu «jorro continua a jorrar por detrás da visibilidade primeira», quer dizer que, na natureza, algo da origem continua ainda visível. Não completamente. Não claramente. Mas perceptivelmente. Uma luz sobre o mar, um ramo ao vento, um animal que surge, o brilho do sol — tudo isso pode dar-nos a impressão de ver algo que vem de muito mais longe do que aquilo que conseguimos nomear.
A última expressão, «um estranho olhar retrospectivo», é magnífica. Significa que ver a natureza não é apenas olhar para diante. É também como olhar para trás, para um passado sem memória precisa, para uma profundidade anterior à nossa vida consciente. A natureza faz-nos sentir algo de arcaico. Recorda-nos um mundo primeiro que nunca conhecemos verdadeiramente como sujeitos, mas do qual viemos.
Simplificando muito, poderíamos dizer que este texto conta o seguinte: o ser humano acredita frequentemente que pensa sozinho, mas nunca pensa sozinho.
Ele pensa... nós pensamos numa língua que recebemos, em narrativas que não escolhemos, numa dependência mais antiga do que nós. E, no entanto, pode tentar remontar até essa origem obscura. Isso perturba-o, coloca-o em perigo, mas pode também fazê-lo renascer. E a natureza é, para ele, um dos raros lugares onde essa origem ainda se deixa entrever.
Foi então que me ocorreu um sentimento estranho... uma irrupção implacável...
Identifiquei-me com o Menino Lua.
Não sei como.
E desde então, apesar da consciência da falta, não consigo expulsar esta ideia.
E sabe tão bem quanto eu quão cruel é a caça para o caçador que acaba por ser caçado...
O Menino Lua apareceu-me — custa-me dizê-lo — não como alguém que me concedesse a menor parcela de liberdade, mas com uma lucidez profunda e por vezes dolorosa...
Como uma origem.

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