samedi 20 juin 2026

(118) A abracadabrante história da Criança Lua

 « O teatro está na realidade ardente e não na imitação. Não é o reflexo da vida, mas a vida naquilo que ela tem de irredutível, de ardente, de extremo. [...]
É preciso que o espectador esteja no meio da ação, arrancado à sua imobilidade, cercado, abalado, tomado por uma necessidade mais forte do que ele. O teatro já não deve representar, mas agir. »

Antonin Artaud, O Teatro e o Seu Duplo




Onde os papagaios, alimentando-se das palavras que reproduzem, prosseguem a sua lenta e surpreendente evolução.

— Seremos nós desses narradores que sabem que apenas repetem a voz de um mestre que nunca veem, ou testemunhas da «queda na inautenticidade»...?
— ...mas somos também, pela nossa repetição, os guardiões da Memória. O mestre cujas palavras repetimos é o próprio Ser... ele nunca fala diretamente, mas sempre através do retraimento, da máscara, do eco.
— Haveria então aqui uma tripla narração... como uma tríade de interpretação.
— O teatro seria visto por dentro por Pinóquio o Outro... ou pelo Menino Lua... depois, por fora, por nós, os papagaios... e, desde a origem, pelo nosso mestre... Trata-se de uma estrutura iniciática trinitária.
— Sim, e isso aproxima-se do que alguns pensam: o pensamento não produz o sentido, expõe-se a ele.
— Toda esta história seria então uma exposição. Não explica nada. Poderia incendiar o pensamento do leitor.
— Participar no teatro não é desempenhar um papel...
— Então o que seria?
— É deixar-se consumir na verdade do fogo. Os espectadores corajosos não são aqueles que veem melhor, mas aqueles que morrem para si mesmos, aqueles que deixam de ser espectadores para se tornarem fogo.
— Assim, isso seria também uma metáfora do próprio pensamento. Pensar não é observar, mas sofrer a vinda do Ser.
— Como Pinóquio o Outro!
— Ou aquilo em que ele se torna...
— Exatamente. Ele não vê os guias, mas segue-os. Não compreende, mas caminha. Não interpreta, mas atravessa...


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