Voici la traduction portugaise :
« Todo o pensamento é um tremor. Pensamos contra nós mesmos, pensamos contra o próprio pensamento, pensamos para não sucumbir ao patético. Há mais verdade numa queda do que em todas as filosofias. A lógica não passa de uma vertigem domada. »
Emil Cioran, A Queda no Tempo (1964), Gallimard, p. 79
« Todo o pensamento é um tremor. Pensamos contra nós mesmos, pensamos contra o próprio pensamento, pensamos para não sucumbir ao patético. Há mais verdade numa queda do que em todas as filosofias. A lógica não passa de uma vertigem domada. »
Emil Cioran, A Queda no Tempo (1964), Gallimard, p. 79
Muito tempo depois de terem descido da árvore onde encontraram os minúsculos burros e muito depois de estes lhe terem proposto o enigma que, lenta e obstinadamente, continuava o seu caminho através dos seus espíritos, e depois de terem seguido, de livre vontade ou pela força das circunstâncias, as suas raízes gigantescas, a vida de Dom Cenoura da Plancha... ou, segundo outras fontes, da Mancha, tal como a de Sangue Quente da Pança, tomara um rumo singular. Nada daquilo que desejara se apresentara ainda, e nada fazia prever que pudessem escapar ao enigma que os mantinha prisioneiros.
Tal como o seu mestre, empoleirado sobre alicerces bem frágeis, Sangue Quente agia com todo o tato possível numa situação semelhante; mas, como repetia demasiadas vezes:
"Em semelhante estado de coisas... ao impossível ninguém é obrigado!"
Foi assim que Dom Cenoura e o infiel Sangue Quente chegaram às imediações do Arquipélago.
Entre ambos, nada parecia ter mudado. Dom Cenoura, contudo, deixara cair algumas gotas de vinho na água, o que, à primeira vista, o fazia parecer mais afável.
— Recordai-me em pormenor, Sangue Quente... aquilo de que faláveis... desse enigma que nasce naqueles da nossa fronte... nesse instante retirado no coração daquela árvore... juntamente com... talvez... o nosso futuro corcel...
— Mestre, vejo sem desagrado que uma certa ideia vai abrindo caminho... longe de mim a intenção de pregar mais um prego...
— Então continua! Treme e vejamos se, como dizes, a ideia consegue realmente encontrar o seu caminho...
— As ideias, Senhor, são como os pensamentos: vão e vêm conforme lhes apraz. Se querem ir por ali... vão. Se querem vir por aqui... vêm. Nada lhes resiste. Em todas as coisas escavam caminhos invisíveis...
— Então que venham até aqui! Mas dizei-me... e o nosso caminho? Falai, pois assim vo-lo ordeno. Quero fazer parte dele... ou, pelo menos, ser por ele guiado.
— Como se costuma dizer, se ouso dizê-lo... certamente o sabeis... o caminho não é o caminho... e, apesar da nossa longa caminhada, nada está ainda resolvido...
— Resolvei então... resolvamos! Fazei soar de novo o chamamento das palavras!
— Eis aí! Donde poderia ter-me vindo essa prosa estranha, senão dele?
— Sem sequer repetir o enigma, o enigmático regressa... Quem será então esse ele? Será novamente uma armadilha onde o meu próprio espírito irá lançar a linha?
— Digo-vo-lo... quase sem rodeios... talvez se trate... do vosso futuro corcel...
— O quê? Daqueles microscópicos burros sem qualquer prestígio?
— Ridículos, Senhor, não o são. Ponde termo a essa querela.
— Sobretudo não me volteis a dizer que falavam, valha-me Deus!
— Não digo tal coisa... mas... olhai um pouco melhor...
— Mas? Que significa esse mas? Terminai a frase!
— Mas... sem que ele me falasse, sem palavras, portanto, sem ênfase, dei por mim, de súbito, a pensar...
— A pensar... em quê?
— Num enigma obscuro que parecia ter escapado dele.
— Basta de rodeios! Repeti aqui essa amarga sentença, para que acabemos de uma vez por todas!
— Foi nestes exatos termos que ela se apresentou:
"Quem sou eu se, despertando sem cessar, dia após dia, me persegue o eco das palavras ouvidas durante o meu sono:
'Sou um infiltrado dentro do agente duplo esquizofrénico que sou. Quem sou eu se sou aquele que o diz e quem sou eu se sou apenas aquele que o ouve?'
Foi então que compreendi como, em poucas palavras, se pode formar um labirinto."
— E qual será a nossa resposta a este negro e silencioso alvoroço?
— Nenhuma, meu Senhor, nenhuma. A perturbação invade-me. Confesso-o.
— Que faremos? Sabes bem que, quando a inatividade me pesa... o fervilhar começa a fazer-se sentir... e ameaça... Sentes os tremores da ilha?
— Meu Senhor, conservai a calma; fazeis-me estremecer também. Não há necessidade de eructar... perdão... de irromper... enfim... de erupção... desculpai a confusão... queria dizer explodir. Creio firmemente, tal como o burro me levou a acreditar, que deveis encontrá-lo...
— Será então necessário que, no meio desta confusão e atendendo ao seu tamanho diminuto, eu seja tomado pela vertigem e me abaixe?
— Essa pergunta pertence-vos, nobre Mestre... e a resposta permanece fluida...
— Porque diabo haveria eu de me prestar a tais jogos?
— Poderá ser o destino... o vosso destino... e ninguém o pode ignorar. Chegou o momento de implorar uma chave!
— E, além disso... ainda me será preciso implorar...!

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