« É preciso compreender bem que aquilo a que chamamos ‘natureza’, aquilo que assim nomeamos com tanta ingenuidade ou nostalgia, já está preso numa rede de discursos, representações, narrativas e saberes. A natureza como origem pura, bruta, anterior ao homem, é uma invenção cultural, um efeito da linguagem. O homem não descobre a natureza: fabrica-a ao falar dela. E quanto mais erudito for o discurso, ou quanto mais belo for, mais capaz será de nos fazer acreditar nessa natureza, como se ela fosse uma verdade que nos precedesse. Mas não existe um exterior da linguagem. Não existe pureza primitiva; existem apenas construções, efeitos de discurso. O papel da crítica, então, não é destruir esses discursos, mas mostrar os seus mecanismos, o seu poder e aquilo que procuram fazer-nos acreditar.»
Michel Foucault, As Palavras e as Coisas
Onde se descobre que um dos papagaios, talvez sob a influência distante e muito indireta de Félix, é tomado por um acesso de crítica aguda a propósito daquilo que supostamente deve repetir...
— É preciso desconfiar destes textos que, sob o pretexto de celebrar a potência do mundo natural, acabam por mitificá-lo.
— Refere-se ao que dizíamos ontem... ou anteontem...
— Sim... mas mais ainda à forma como as palavras se misturam nas memórias e em certos excertos de diversos cadernos que estudámos...
— Não são eles interessantes?
— Certamente... por vezes são-no pelo seu fôlego, pela sua precisão sensorial, algumas vezes pela sua capacidade de tornar sensível a espessura da rocha, o odor do enxofre ou o silêncio profundo das ilhas.
— Então, de que deveríamos desconfiar? Não será isso... não apenas verdadeiro... mas também do mais belo efeito?
— Pois bem... é precisamente essa eficácia estilística que exige uma leitura crítica. Porque quanto mais belo parece um texto, mais devemos desconfiar daquilo que ele faz passar por verdadeiro.
— Não o sigo...
— Estamos aqui perante uma construção imaginária de um mundo «anterior ao homem» ou «à margem do homem»: uma natureza primordial, brutal e incandescente, que o autor, seja ele quem for... talvez o nosso mestre... parece querer opor implicitamente às sociedades humanas e às suas desordens. Esta estética do caos fecundo, esta visão de um mundo que recomeça na rocha e no vapor, inscreve-se numa longa tradição ocidental: a da natureza concebida como origem pura, como laboratório primordial, como promessa regeneradora.
— Deveríamos então abdicar do menor dos fantasmas?
— Esse fantasma não é neutro. Participa de um imaginário que tende a apagar as presenças humanas reais, passadas ou presentes, nesses lugares. Notar-se-á a ausência total de qualquer vestígio cultural, de qualquer memória que não seja elementar.
— Seríamos nós próprios «elementares», meu caro...?
— A ilha não possui história humana. É descrita como uma página em branco, um deserto sagrado. Isso recorda estranhamente a forma como os primeiros viajantes europeus falavam das terras que «descobriam»: como se ninguém ali tivesse vivido, como se apenas o vento, o fogo e os pássaros pudessem reivindicar alguma forma de legitimidade.
— Tenho dificuldade em reconhecê-lo nesse belo discurso... tanto ele se enche de algo próximo da cólera e até de alguma amargura...
— Esta estética da ilha-matriz, do «vestígio tornado começo», não é inocente...
— De que a acusa?
— Reflete um desejo moderno de reencantamento através do regresso a uma natureza rude mas significativa, uma natureza que ainda seria capaz de nos falar, ou mesmo de nos corrigir.
— Isso tranquiliza-me um pouco...
— O silêncio geológico evocado no final do texto, esse «silêncio mais profundo do que a noite», está carregado de projeções: ele respira apenas aquilo que se deseja ouvir nele.
— Esse alívio não durou muito...
— Nesse sentido... para dar um exemplo... releia-o... a evocação de Rimbaud, «A eternidade é o mar misturado com o sol», funciona aqui menos como esclarecimento do que como véu. Essa frase, transformada em totem do indizível poético, é utilizada para selar a aliança mística entre os elementos, para sacralizar aquilo que o texto apresenta como um recomeço.
— Mas de que eternidade estamos a falar?
— De uma eternidade à qual deveríamos fazer eco!
— Mas diga-me: como fazê-lo sem voz humana ou sem memória?
— Esse mar misturado com o sol é talvez, no fundo, uma ficção do esquecimento.
— Não deixa de ter beleza... o próprio o diz.
— Não se trata de negar a beleza deste texto, nem a sua força evocativa.
— Então de que se trata?
— Trata-se de recordar que essa beleza se inscreve num sistema de representação: aquele que transforma o caos natural numa cena de iniciação, o mineral num mito fundador e o vivo num milagre silencioso. Ora, as ilhas reais, vulcânicas ou não, são atravessadas por histórias concretas, práticas, conflitos e cosmologias que excedem esse devaneio geológico. É preciso manter isso em mente sempre que um texto nos fala de origens.
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