jeudi 11 juin 2026

(107) Espelho e memória

 

– Quando o espelho se confunde com a memória... ou a memória se confunde com o espelho... não se trata de um simples acidente técnico. Toca um ponto onde duas operações muito diferentes... e, no entanto, secretamente ligadas... se roçam.
 
– É aqui que o lapso se torna fecundo...
O que revela ele?
– Revela que a memória e o espelho partilham uma estrutura comum...
– A do reflexo!
– Sim... mas esse reflexo não é uma duplicação.
– O que é então?
– É sempre uma colocação em forma.
– Poderíamos dizer, então, que o espelho é uma memória sem espessura...
– ...ou que a memória é um espelho... com tempo. E entre os dois haveria uma oscilação.
– O espelho parece exterior, a memória interior. Contudo, nem um nem a outra são puramente de fora nem puramente de dentro.
– O espelho só é legível a partir da memória. E a memória só se dá sob a forma de imagens...
– Quer dizer?
– Quer dizer: de reflexos. Se avançarmos um pouco mais, tocamos numa experiência mais perturbadora.
– Qual?
– No espelho, vemos-nos como um outro.
– E na memória?
– Na memória, reencontramo-nos como um outro.
– Um pouco como nós...
– Em ambos os casos, introduz-se uma distância no próprio coração da identidade. Nunca somos imediatamente nós mesmos. Passamos sempre por uma forma, visível ou recordada, para nos reencontrarmos.
– É sem dúvida por isso que o lapso se sustenta: revela uma proximidade estrutural.
– Sabe, aquilo a que chamamos «memória» e «espelho» não são duas realidades estranhas uma à outra.
– O que são então?
– São duas modalidades de um mesmo fenómeno: a maneira como algo se dá a si mesmo ao desdobrar-se.
– E se regressarmos ao que me dizia há pouco... esse «algo» que nos acontece...
– Poderíamos dizer o seguinte: aquilo que aparece já se encontra sempre entre a memória e o espelho. Dá-se como uma imagem... espelho, mas essa imagem só tem sentido porque ressoa com aquilo que já foi... memória.
– Assim, ver, recordar, reconhecer-se... tudo isso pertenceria à mesma cena.
– Uma cena onde nada se dá jamais de forma direta, mas sempre através de um reflexo que, ao mesmo tempo que mostra, transforma.
 
 

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