jeudi 18 juin 2026

(116) A abracadabrante história da Criança Lua


“Um dos aspetos principais do famoso «milagre grego» é que parte do conhecimento dos factos para chegar à generalidade da abstração. Por exemplo, os Antigos tinham descoberto que, num terreno cultivável triangular de uma superfície determinada e limitado por um ângulo reto, os lados tinham um certo comprimento que definia a propriedade. Era um conhecimento de agrimensor. Foi preciso Pitágoras para mostrar que, em todos os triângulos retângulos do universo, o quadrado do lado oposto ao ângulo reto era igual à soma dos quadrados dos outros dois lados. Esta descoberta possuía uma virtude: podia pôr de acordo, sobre um facto de conhecimento, qualquer ser humano, qualquer que fosse a sua origem ou opinião. Os primeiros filósofos eram muitas vezes matemáticos, porque procuravam leis constantes capazes de pôr toda a gente de acordo. São sem dúvida necessárias inúmeras coisas, grandes e pequenas, importantes ou fúteis, para estabelecer a concórdia entre os homens. Mas nenhuma é negligenciável. Toda descoberta, quer seja de ordem filosófica quer de natureza científica, é necessariamente preciosa.
A concórdia não é um conceito vazio; pelo contrário, está preenchida por uma multidão de pontos de acordo sobre os assuntos mais diversos. É muitas vezes com dificuldade que as leis constantes acabam por se impor; Galileu ou Darwin pagaram por sabê-lo.”

Philippe Val, Le sujet face au réel, Éditions in Press




Onde o teatro, segundo os cadernos de Félix, é considerado como lugar de aparição, a teoria como tentativa de compreender aquilo que aparece, e o Menino Lua que, sem o saber, já caminha nesse espaço intermédio onde ver e compreender ainda não se separaram. Sob as penas dos nossos dois narradores, deslizam sem cessar letras e palavras...

— O fogo da narrativa não é um fim.
— Então o que é?
— É a luz da origem, aquela que precede a linguagem e consome tudo o que pretende fixar-se. O teatro é uma boca...
— E nós... os pensadores...
— Oh! Como vai longe!
— Estamos sempre já a ser engolidos...
— Espero que esteja enganado.
— Não creio. Olhe antes para o Menino Lua. Ei-lo que avança sob os nossos antigos poleiros, o seu longo bastão de peregrino na mão, talvez convencido de que atravessa um cenário abandonado...
— Engana-se?
— Como todos os viajantes dignos desse nome.
— E por onde caminha ele?
— Por uma história e um tempo que o precedem.
— Fala dele como de uma personagem.
— Porque ele insiste... tal como nós... em ser uma... ou talvez duas...
— E ele sabe-o?
— Felizmente, não.
— Porque felizmente?
— Porque uma personagem que se conhece inteiramente deixa imediatamente de viajar.
— E se ele fosse apenas um transeunte... por acaso?
— Os transeuntes são personagens que se ignoram.
— Eis uma fórmula bastante cómoda.
— As melhores fórmulas são sempre assim. Abrem uma porta e desaparecem antes que alguém pense em pedir-lhes os documentos.
— No entanto, eu vejo apenas uma criança que avança entre vigas, cordas e colunas.
— Porque está a olhar para a cena.
— E que mais deveria eu olhar?
— Aquilo que olha através dela.
— Aí está de novo.
— E aí está o senhor a resistir mais uma vez.
— Como sabe, alguém tem de se encarregar disso.
— Certamente. Sem os cépticos, os profetas acabariam por acreditar em tudo o que contam.
— E sem os profetas, os cépticos morreriam de fome.
— Estamos, pois, como eles, condenados a viajar juntos.
— Como aqueles dois antigos verbos de que falava um sábio que nunca lemos e de quem, no entanto, nos lembramos.
— Não vejo.
— Precisamente... ver e compreender.
— Se confiar no meu instinto, sempre os considerei distintos.
— Distintos como as duas faces da mesma moeda. Uma recebe a luz; a outra conserva a sua marca.
— Bela imagem.
— Não é minha.
— Então de quem é?
— Ignoro-o. As histórias estão cheias de objectos perdidos que continuam a servir.
— Eis outra frase que apanha à beira do caminho como uma criança encontra uma concha.
— As narrativas são feitas assim. Inventamos ao recordar.
— Essa fórmula, embora me agrade mais, deixa-me pensativo.
— Porque é verdadeira.
— Não deveríamos desconfiar das verdades que chegam demasiado bem vestidas?
— Então olhe para essa criança. Ei-la que parece, ou talvez acredite, avançar por entre cenários.
— Talvez imagine atravessar um teatro abandonado, uma máquina esquecida, algum armazém de sonhos...
— E pensa que ela se engana?
— Não. Penso apenas que ainda ignora que ela própria é um dos cenários.
— Eis uma observação pouco caridosa.
— Porquê? As montanhas são cenários. Os mares são cenários. As próprias estrelas consentem em desempenhar um papel. Será bárbaro ou cruel dizê-lo?
— Está a transformar o universo inteiro numa representação...
— ...e o senhor numa teoria.
— Decididamente, gostaria de não me deixar nada.
— Pelo contrário. Deixo-lhe o mais difícil.
— E o que seria isso?
— Compreender aquilo que vê.
— E o senhor, a que tarefa se dedica?
— Procuro, da melhor maneira que me é possível, ver aquilo que ninguém compreende ainda.
— É, no mínimo, uma ambição considerável.
— Atribui-me desígnios principescos quando nem sequer possuo uma coroa de penas convenientemente ajustada.
— Peço-lhe que não se esquive.
— Não me esquivo. Apenas me surpreende que atribua à nossa espécie uma pretensão tão vasta.
— Perdoe-me, mas ver aquilo que ninguém compreende ainda não é tarefa pequena.
— Certamente. Mas, para além de nós... não somos nós os primeiros a olhar.
— Quem seria então?
— O próprio mundo.
— Eis uma resposta muito distante e muito obscura.
— Não mais obscura do que a aurora. Antes que os homens lhe dessem um nome, a luz já iluminava as montanhas.
— Tento segui-lo... estaria então a sugerir que o sentido precede os intérpretes?
— Sugiro apenas, muito prosaicamente, que chegamos sempre um pouco atrasados.
— Mesmo nós?
— Sobretudo nós.
— E que fazemos então?
— O que fazem os velhos contadores de histórias, os astrónomos e os pássaros: recolhemos os vestígios.
— Vestígios de quê?
— Daquilo que ainda procura aparecer.
— Fala como um explorador.
— Não... como uma testemunha.
— Qual a diferença?
— O explorador afortunado descobre um continente.
— E a testemunha temerária?
— A testemunha, não menos afortunada, descobre que já habitava nele.
— Eis algo que nos reconduz singularmente ao nosso viajante.
— Nada jamais nos afastou dele.
— Acredita que ele sabe para onde vai?
— Os heróis quase nunca o sabem... e não precisam disso.
— E os contadores de histórias?
— Ignoram-no um pouco menos...
— Isso não me... nem o... tranquiliza muito.
— Tranquilizá-lo seria a forma mais segura de o perder. Além disso, ele pouco precisa disso.
— É cruel.
— Não. A narrativa é que o é, por vezes. Abre caminhos cuja existência ninguém havia pedido.
— No entanto, essa criança caminha com passo decidido... certamente, mas tranquilo.
— Porque ainda vê apenas as tábuas.
— Suponho que se refere às tábuas deste teatro. E o senhor... o que vê?
— Já ouço ao longe o sopro dos aplausos.
— Que aplausos?
— Os que precedem a representação.
— Julgava que a seguiam.
— Nos teatros conhecidos, sim.
— E aqui?
— Aqui, os espectadores aplaudem por vezes antes mesmo de a cortina se levantar.
— Estranho costume.
— É que os espectadores, se os há, saúdam menos aquilo que vai ser mostrado do que o simples facto de uma aparição ainda ser possível.
— Fala como se cada entrada em cena fosse um nascimento...
— ...e cada nascimento uma entrada em cena.
— Então este teatro não teria paredes.
— Nem tecto.
— Nem saída?
— Ah! Eis uma questão mais delicada.
— Existiria então uma saída?
— Talvez...
— Hesita.
— Certas passagens, como as antigas portas, podem ser invisíveis.
— E para onde conduzem?
— Para o mesmo lugar.
— Que lugar?
— Aquele de onde a viagem havia começado.
— Isso parece muito um regresso.
— Não.
— Não?
— Uma aparição.


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