mardi 16 juin 2026

(114) Segunda carta de Lucian a Félix

" Precisamos do tónico da natureza selvagem. Nunca poderemos ter natureza em quantidade suficiente. Precisamos de ser revigorados pela visão desse vigor inesgotável, dessas formas vastas e titânicas, da costa marinha com os seus naufrágios, da região selvagem com as suas árvores vivas e as suas árvores em decomposição, da nuvem de tempestade e da chuva que dura três semanas e faz transbordar os cursos de água. Precisamos de testemunhar a transgressão dos nossos próprios limites e de perceber uma vida que pasta livremente onde nunca nos aventuramos."
 
 
 
Caro Félix,
 
A distância é uma excelente conselheira... Foi assim que os meus sentimentos a seu respeito, por assim dizer... se acalmaram. Hoje é quase um dia de repouso, enquanto o circo volta a erguer os seus mastros... e, por trás das suas pesadas cortinas, prepara-se uma vez mais para se revelar...
Quando o Enfant Lune, a partir de Pascal Quignard, discorre sobre a pós-linguagem (postlangage), quer dizer, como ele, que essa pós-linguagem não é simplesmente aquilo que vem depois de se ter falado, mais ou menos bem. É antes um estado em que o pensamento tenta ultrapassar a linguagem comum... sem a rejeitar. Como se, através das palavras, se procurasse alcançar algo que as palavras não contêm inteiramente.
A literatura, em Quignard, e o Enfant Lune compreende-o perfeitamente, segue muitas vezes nessa direção: serve-se da língua para tocar aquilo que precede a língua. Pois bem, isto poderá surpreendê-lo, Félix... mas acontece-me pensar, ao ler os cadernos do Enfant Lune, que aquilo que ele escreve me precede...
Nesse sentido, pensar verdadeiramente, como o faço agora, tão longe de si, não consiste apenas em organizar ideias. Pensar verdadeiramente seria aproximar-se dessa zona muito antiga que existe em nós, dessa obscuridade primordial, desse nascimento que nunca está completamente concluído.
É por isso que ele escreve: «é preciso contemplar o vazio a montante de todas as coisas». O “vazio”, aqui, não é apenas o nada. É o antes. É aquilo que existia antes das formas demasiado nítidas, antes dos nomes, antes das explicações. Contemplar esse vazio é aceitar olhar para aquilo que, em nós, ainda não está bem arrumado. É arriscado, porque aí perdemos os nossos pontos de referência.
Daí frases tão fortes como: «Pode-se morrer para pensar»... poderíamos também dizer morrer de pensar... ou ainda pensar a partir da morte. Mas tais frases não devem ser compreendidas apenas no sentido físico. Querem dizer que pensar até ao fim pode abalar a própria existência.

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