Uma descrição não é uma causalidade...
Enquanto Lucian se torna cada vez mais desconfiado das explicações mecanicistas. Não porque sejam falsas, mas porque por vezes dão a impressão de que, uma vez descritas as engrenagens, o mistério foi dissolvido. Ora, não é assim. Conhecer o mecanismo de um relógio não explica porque alguém lhe deu corda. Assim, apoiando-se no que aprendeu com o seu paciente e na análise dos desenhos, levado pelo seu próprio ímpeto, viaja pelo universo de Igniatius. Um leitor ocasional, pouco informado sobre o contexto, que lesse atentamente uma ou outra das trocas anteriores, poderia deduzir reflexões semelhantes às seguintes... à semelhança de Félix, supervisor de Lucian... nos seus cadernos...
Caderno de Félix
...A carta de Igniatius, dirigida a Lucian e que este me fez chegar, testemunha um estado de desorganização subjectiva moderada, mas significativa. Em todo o caso... e por enquanto... constato, com base nesta carta e no pouco mais que sei dele, que o sujeito não apresenta uma ruptura nítida com a realidade comum... partilhada. Parece conservar uma capacidade de introspecção e uma consciência dos seus afectos. À distância, parece manifestar uma vontade explícita de pedir ajuda. Isso argumenta contra uma descompensação aguda.
Contudo... a forma como descreve as suas personagens — a Criança-Lua, Pinóquio o Outro ou Dom Cenoura, para citar apenas algumas — exige uma atenção particular.
Não se trata aqui de um simples uso metafórico de figuras ficcionais. Estas personagens são investidas de uma consistência psíquica autónoma, não como alucinações, mas como entidades internas dotadas de relações próprias, das quais o sujeito se sente parcialmente excluído. Essa exclusão é central: Igniatius não se vive como atravessado por conteúdos que reconheceria imediatamente como seus, mas como observador de um teatro interior cuja chave perdeu.
O ponto mais preocupante não é a existência dessas figuras, mas a clivagem que descreve entre um saber intelectual intacto e uma experiência corporal dissociada. O corpo age, diz ele, sem que o sujeito se reconheça plenamente nele. Esta dissociação entre compreensão e experiência vivida sugere uma perturbação da integração do eu, possivelmente ligada a mecanismos dissociativos antigos, reactivados por um trabalho criativo intenso.
A escrita surge aqui de forma ambivalente. É simultaneamente um meio de simbolização e um espaço onde a fragmentação se reproduz. O autor já não cria para tomar distância, mas para tentar reconstruir a posteriori. O risco seria confundir progressivamente elaboração psíquica com justificação narrativa, reforçando a clivagem em vez de a resolver.
O pedido dirigido a Lucian é claro: Igniatius não solicita uma interpretação, mas ajuda para voltar a articular aquilo que sabe com aquilo que sente. Este é um ponto favorável. A relação terapêutica parece ainda investida como um lugar possível de retomada e reintegração. Nesta fase, nada impõe uma leitura estritamente psicótica, mas impõe-se vigilância quanto à evolução desta eventual dissociação.
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