"Não se pode continuar a prostituir a ideia de teatro, que só vale pela sua ligação mágica, atroz, com a realidade e com o perigo. [...]
Colocada desta forma, a questão do teatro deve despertar a atenção geral, entendendo-se que o teatro, pelo seu lado físico, e porque exige a expressão no espaço — a única verdadeiramente real, de facto — permite que os meios mágicos da arte e da palavra se exerçam organicamente e na sua totalidade, como exorcismos renovados. [...]
Isto significa que, em vez de regressar a textos considerados definitivos e sagrados, importa antes de tudo romper a sujeição do teatro ao texto e reencontrar a noção de uma espécie de linguagem única, a meio caminho entre o gesto e o pensamento."
Colocada desta forma, a questão do teatro deve despertar a atenção geral, entendendo-se que o teatro, pelo seu lado físico, e porque exige a expressão no espaço — a única verdadeiramente real, de facto — permite que os meios mágicos da arte e da palavra se exerçam organicamente e na sua totalidade, como exorcismos renovados. [...]
Isto significa que, em vez de regressar a textos considerados definitivos e sagrados, importa antes de tudo romper a sujeição do teatro ao texto e reencontrar a noção de uma espécie de linguagem única, a meio caminho entre o gesto e o pensamento."
Antonin Artaud, Primeiro Manifesto do Teatro da Crueldade, em O Teatro e o Seu Duplo
Onde se vê que Igniatius, a meio caminho entre o gesto e o pensamento, se vê prisioneiro de um teatro no qual custa a desempenhar e rejeita o papel que lhe foi atribuído, escrevendo numa língua que lhe pertence e onde a questão da impostura se torna menos moral do que ontológica...
Caderno de Igniatius
Por vezes fala-se de impostura como se fosse uma mentira. Não tenho a certeza de compreender as coisas dessa maneira.
Quando era mais novo, acreditava que um autor era alguém que fabricava histórias. Hoje, já não sei muito bem o que é um autor. Nem sequer sei se esta ignorância deve ser considerada uma fraqueza ou um começo.
Durante muito tempo, contei histórias, no sentido mais literal da expressão, a partir de desenhos. Dizia por vezes que os tinha encontrado. Era verdade. Mas dizia também, por vezes, que não eram meus. Isso também era verdade.
Hoje poderia dizer que eram meus. Continuaria a ser verdade. Estas três afirmações só se contradizem se imaginarmos que um autor é um proprietário. Ora, já não tenho a certeza de que as histórias pertençam a alguém.
Quando olho para um desenho durante tempo suficiente, algo começa a aparecer. Não falo do desenho em si. Falo daquilo que ele provoca.
Um sentimento difuso... uma emoção, uma inquietação, uma recordação sem memória, uma presença cuja origem eu seria incapaz de explicar.
Então conto uma história...
Mas não conto aquilo que sei.
Conto aquilo que o desenho me faz sentir. E, nesse instante, pergunto-me: quem fala? Não sei. Será o desenho... ou eu... ou alguém situado entre ambos, ou para além deles?
Não sei. Sei apenas que algo procura uma forma.
Talvez seja isso aquilo a que sempre chamei história.
Poder-se-ia objetar que eu invento.
Talvez seja verdade.
Mas a invenção não é necessariamente o contrário da verdade.
Quando se desenha um rosto, não se acrescenta um rosto ao mundo.
Torna-se visível uma presença que permanecia confusa.
Talvez as histórias atuem da mesma maneira.
Por isso, não minto quando as conto.
Mas também não me limito a descrevê-las.
Procuro antes seguir um movimento.
Há uma palavra que regressa frequentemente: testemunha. Gosto dessa palavra.
A testemunha não é necessariamente aquela que compreende. É aquela que permanece... junto.
Assiste... no duplo sentido do termo.
Assiste àquilo que aparece... e assiste aquilo que aparece. Faz-lhe companhia durante tempo suficiente para que algo possa ser transmitido.
Gostaria de ser uma testemunha desse género... mas devo reconhecer uma dificuldade. Nunca permaneço perfeitamente imóvel. Ninguém o consegue. No próprio momento em que conto uma história, produz-se um ligeiro deslocamento.
Uma palavra chama outra. Uma imagem transforma-se. Uma recordação mistura-se com um desenho. Uma emoção modifica uma frase.
Um detalhe esquecido regressa.
Julgava testemunhar... e descubro que participo.
Muito pouco. Quase nada. Mas o suficiente para que a narrativa mude ligeiramente de direção.
Os papagaios das minhas histórias conhecem bem este problema. Costuma-se imaginá-los a repetir. Contudo, se escutarmos com atenção, eles desviam-se sempre. Introduzem diferenças tão pequenas que, à primeira vista, parecem erros.
Depois, esses erros transformam-se em passagens.
Talvez todos sejamos assim.
Nem totalmente autores... nem totalmente testemunhas... nem totalmente personagens.
Recebemos algo... transmitimo-lo.
E, nesse intervalo, quase sem o querermos, ocorre uma ligeira transformação.
Se existe uma impostura, talvez ela não resida nessa transformação.
Começaria antes quando um de nós pretendesse ser a origem. Quando alguém dissesse: "Isto é meu..." ou "Isto vem inteiramente de mim."
Desconfio dessas afirmações. Parecem-me mais estranhas do que as próprias histórias. Porque, sempre que tento remontar à origem de uma frase, de uma imagem ou de uma narrativa, encontro outras vozes, outras leituras, outros encontros, outros desenhos, e é como se a origem recuasse à medida que me aproximo dela.
Não sei, portanto, se sou o autor das histórias que, quase apesar de mim, conto.
Sei apenas que passaram por mim.
E por vezes, quando as releio muito tempo depois de as ter escrito, descubro-as quase como se tivessem sido escritas por outra pessoa.
Essa estranheza já não me incomoda.
Talvez seja a assinatura mais fiel da sua proveniência.

Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire