A
corda nasce quando os fios deixam de estar simplesmente lado a lado e
entram numa relação de torção. Enrolam-se uns à volta dos outros.
— Um pouco como as personagens desta história…
— Esse gesto, a torção, é essencial: introduz uma restrição mútua.
— Um pouco como nós…
— Cada fio, ao curvar-se em torno dos outros, perde a liberdade de deslizar. É retido pelos outros tanto quanto os retém.
— São prisioneiros uns dos outros?
— Não… A torção dos fios na corda transforma a coexistência em co-pertença.
A partir desse momento, a tensão deixa de passar por um único fio. Ela circula. Distribui-se.
— Se um cede, os outros assumem.
— Se um afrouxa ligeiramente, o conjunto absorve…
— …redistribui ou compensa.
— A corda torna-se capaz de durar porque já não está localizada num único ponto. É um sistema de revezamentos.
— Como o fio da nossa história!
— Aquela em que cada fio se torna responsável pelos outros…
— Quer dizer que cada personagem é responsável…
—
É preciso insistir neste ponto: a solidez da corda não vem da força de
cada fio, mas da forma como as suas fragilidades se ligam.
—
Se um fio estiver sozinho… pode partir-se. Vários fios mal dispostos
deslizam ou desequilibram-se. Mas fios entrançados produzem uma forma
paradoxal de resistência: mantêm-se porque não se sustentam sozinhos.
— Assim, a corda seria uma comunidade organizada de fragilidades.
— E essa organização não elimina as diferenças.
— Os fios não se tornam idênticos.
— Conservam os seus comprimentos, as suas irregularidades e as suas tensões próprias.
—
Mas a torção obriga-os a entrar numa espécie de ajustamento permanente.
Nenhum pode seguir a sua própria linha sem ter em conta os outros. A
corda é uma negociação contínua inscrita na própria matéria.
— Poder-se-ia dizer que cada fio, tomado isoladamente, é uma promessa que falha. Anuncia a corda, mas não a consegue realizar.
—
Só ao aceitar perder a sua rectidão própria, ao curvar-se, ao deixar-se
constranger pelos outros, acede a uma nova forma de potência.
— A força nasce aqui de uma perda de soberania?
—
É preciso então compreender a corda como uma composição activa, nunca
dada de uma vez por todas. Se a torção se afrouxa, os fios podem voltar a
deslizar.
— Se um se rompe, o equilíbrio modifica-se…
— A corda vive desta tensão mantida, desta restrição partilhada que precisa de continuar a sustentar-se.
— Não é um objecto estável, mas um equilíbrio em acto.
—
E talvez seja aqui que se joga algo de mais amplo: toda a verdadeira
composição exige esta passagem pela qual elementos capazes de se
manterem sozinhos aceitam deixar de bastar a si próprios.
— Entram numa relação em que a sua potência depende daquilo que os limita.
— Assim, a corda não mostra apenas como os fios se tornam mais fortes em conjunto.
— Mostra como aquilo que, isoladamente, não passava de uma linha frágil se torna capaz de sustentar, transportar e fazer passar.
— …desde que renuncie a permanecer recto.
— A rectidão, por si só, não se sustenta.
— É preciso o desvio, o enrolamento, o contacto constrangedor.
— É preciso que cada fio se torne, para os outros, simultaneamente apoio e obstáculo.
— Só então surge essa coisa estranha…
— …uma unidade que não elimina a multiplicidade…
— …mas a torna compreensível.
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