«As numerosas críticas a que o teatro deu origem ao longo da sua história podem, de facto, ser reduzidas a uma fórmula essencial. Chamarei a isso o paradoxo do espectador, um paradoxo talvez ainda mais fundamental do que o célebre paradoxo do actor. Este paradoxo é simples de formular: não há teatro sem espectador (nem que seja um único espectador oculto, como na representação fictícia de O Filho Natural, que dá origem aos Entretiens de Diderot). Ora, dizem os acusadores, ser espectador é um mal por duas razões. Em primeiro lugar, olhar é o contrário de conhecer. O espectador encontra-se diante de uma aparência, ignorando o processo que produziu essa aparência ou a realidade que ela encobre. Em segundo lugar, é o contrário de agir. A espectadora permanece imóvel no seu lugar, passiva. Ser espectador é estar separado ao mesmo tempo da capacidade de conhecer e do poder de agir.»
Jacques Rancière, O Espectador Emancipado
… silhuetas dissolvidas nas frases… memórias enterradas em espelhos…
O leitor fatigado ergue as pálpebras e abre bem os olhos. O olhar, estendido para o horizonte como se aguardasse um regresso que já não vem, baixa-se de novo sobre as palavras e as imagens. O vento, vindo do largo, avoluma-se — não para responder ou resolver, mas para prolongar o enigma.
Então sente-se que esta ilha não é única. Outras surgem aqui e ali, invisíveis. Outros lugares… nascidos de uma mesma história: arquipélagos de pensamento ou de memória. Entre eles circulam os ventos, portadores de cartas mudas, de linhas quebradas e de páginas rasgadas… pelas quais Lucian viaja.
Talvez estejamos todos encalhados algures, cada um à sua maneira. Talvez as nossas leituras, as nossas escritas, os nossos sonhos sejam ventos que, de longe em longe, nos ligam e nos falam.
As ilhas do Arquipélago fazem parte da realidade?
Há muito que a questão transbordou os limites de Igniatius, da Criança-Lua e do seu Ursinho, de Dom Cenoura e até de Félix. Permanece para Lucian que, nos seus sonhos, se torna Lucien Joyeux…

— Este sonho… é meu?
Poderá a substituição da criança por esta figura mascarada significar uma etapa do meu próprio percurso interior? A inocência desvanece-se, cedendo lugar a uma consciência mais aguda das complexidades da existência. Esta nova luz… será a aurora de uma nova compreensão ou o clarão anunciador de uma crise?
Tenho de continuar a observar — pensa Félix —, a sentir no mais profundo de mim os ecos destas imagens. Esta viagem onírica, seja ela minha ou de outro, continua a desenrolar-se, e cada detalhe desta nova cena traz em si um significado potencial, uma chave para decifrar os mistérios da mente… da deles ou da minha própria…
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