Pela terra vemos a terra,
pela água a água,
pelo ar o ar divino,
pelo fogo o fogo destruidor;
pelo Amor o Amor,
e pela Discórdia a funesta Discórdia.
Empédocles (fragmento B109 na numeração Diels–Kranz)
Onde provavelmente não se fala apenas dos sentimentos humanos. Aquilo que aqui se diz poderia sugerir que reconhecemos no mundo certas forças... porque elas já estão em ação dentro de nós.
— Já não vejo o Menino Lua a percorrer o seu teatro em ruínas... e para onde desapareceram Pinóquio o Outro, Daemon, Dom Cenoura e todos os demais?
— O nosso mestre diz que eles também estão no Arquipélago...
— Poderia dizer-me algo que ele ainda não me tenha dito?
— Terra Archipelagos... onde, diga-se de passagem, têm lugar o teatro... ou o circo... é um arquipélago movente, como se tivesse sido arrancado ao alicerce do mundo pela cólera subterrânea.
— Está a assustar-me...
— Uma constelação de ilhas negras, cinzentas, ocres ou lívidas, espalhadas sobre o oceano como escórias de um sonho geológico. À medida que nos aproximamos, as suas formas revelam-se instáveis: cristas recortadas, domos inchados, planaltos rasgados. Cada ilha parece simultaneamente antiga e em vias de nascer, imóvel e, contudo, pulsante sob a crosta rugosa da sua superfície.
— Nada disso me parece muito alegre e faz-me tremer...
— De facto. A ilha principal, se é que existe uma, tão mutáveis elas são, distingue-se pela sua austeridade. Não tem nada dessas terras verdejantes onde a vida escorre em abundância. É um amontoado de rochas escuras, basálticas, por vezes vitrificadas pelo fogo. O seu solo é irregular, frequentemente cortante, eriçado de escórias onde se adivinham ainda os vestígios da erupção que lhe deu forma. As rochas, de um negro fosco ou de um cinzento ferruginoso, estão fendidas, sulcadas por falhas que exalam vapores tépidos, por vezes sulfurosos. Têm aquele odor a ovo, ferro enferrujado e cinza molhada que se respira nas fendas vulcânicas da cordilheira dos Andes.
— E o mar?
— O mar em redor é de um azul mineral, muitas vezes manchado por rastos negros: correntes recentes de cinza ou fluxos de detritos orgânicos. Em certos lugares, a água ferve literalmente, agitada por uma atividade geotérmica submarina. Medem-se aí temperaturas anormalmente elevadas e, por vezes, surgem bolhas repentinas, ilhéus fumegantes ou estranhos cardumes de peixes perfeitamente imóveis.
— Tudo isso, sem querer insistir, parece-me bastante lúgubre!
— E, no entanto... no coração deste caos, em algumas dessas ilhas, a vida insinua-se. Aves marinhas fazem ali os seus ninhos: atobás-de-pés-azuis, fragatas, gaivotas com as asas salpicadas de sal. Algumas gritam, outras planam em silêncio, mas todas participam nesta coreografia orgânica. Depositam nas fendas sementes vindas de longe, enriquecem os solos com o seu guano e traçam sulcos no ar como orações suspensas. Contudo, a maior parte destas ilhas, na sua austeridade, torna-se algo mais do que vestígios...
— Continue! O que seriam elas, se não vestígios?
— Um começo. Estas ilhas não são um lugar de esquecimento, mas de despertar. Um laboratório bruto onde a matéria se organiza, luta, fracassa e recomeça.
Pulsam num silêncio geológico...
— Esse silêncio mais profundo do que a noite.
— Escute esse silêncio que respira!
— É isso mesmo! Existem palavras que não descrevem o mundo, mas o reinvocam. Palavras em que os termos já não servem apenas para designar, mas para despertar as forças adormecidas da matéria. Esta paisagem, densa, mineral, sem qualquer concessão ao pitoresco, pertence a essa escrita dos começos, a essa geopoética das origens que toca aquilo a que Rimbaud chamou, numa fulguração estranha...
— Conheço: «a eternidade, o mar misturado com o sol.»
— Não estamos a visitar uma ilha. Estamos a visitar um batimento. Uma pulsação primitiva arrancada às entranhas do globo, ainda morna da criação. O nosso mestre não nos estende um mapa: mergulha-nos num epicentro. Aqui o solo não é um cenário. É um organismo. Fende-se, respira, exala vapores...
— ...como se o mundo nunca tivesse arrefecido completamente, como se a crosta terrestre fosse apenas uma pele fina sobre uma criatura ainda viva.
— Exatamente.
— E o que se vê?
— Um arquipélago à deriva do real, uma constelação de cinzas, de ilhas enegrecidas que não são refúgios, mas laboratórios. A vida não escorre ali como nas narrativas fáceis de exotismo. Ela hesita. Balbucia. Tenta, à imagem da própria matéria, tomar forma. O texto capta esse momento raro em que o vivo e o mineral, o fogo e o sal, o silêncio e o grito coexistem ainda numa equação instável.
Daí essa estranha tensão: cada ilha parece, dizem-nos, «antiga e em vias de nascer». Eis o coração pulsante da passagem, essa suspensão entre ruína e génese. Poderíamos julgá-la um cenário pós-apocalíptico, não fossem aquelas personagens que aparecem e desaparecem ao mesmo tempo que o circo que as abriga, discreto poço de esperança. Nada está concluído. Nada está perdido. A natureza, na sua forma mais áspera, exercita-se ali de novo. Falha. Recomeça. Persiste. Não é um Éden, mas é uma promessa.
— Quanto ao mar, não é uma superfície: é uma matriz.
— Ferve, fumega, dá à luz. E é precisamente aí, segundo o nosso mestre, que a frase de Rimbaud encontra a sua câmara de eco: «a eternidade é o mar misturado com o sol». Porque essa eternidade rimbaudiana não é a paz nem a imobilidade, diz ele... é o movimento perpétuo dos elementos, a colisão dos astros e das águas, a luz fecundando o abismo. O nosso mestre compreendeu-o: o mar não é apenas azul; é incandescente; não é liso...
— ...está em luta.
— A ilha torna-se então a primeira palavra de uma linguagem ainda inarticulada.
— Uma sílaba geológica de um poema mais vasto do que a humanidade. Não é um lugar de esquecimento, mas de despertar, não porque ali se encontrem respostas, mas porque tudo ali permanece por inventar.
— Não estamos diante de uma paisagem, mas diante de um começo que não acaba...
— O silêncio que ali se respira não é vazio...
— Está cheio de futuro.
— Ele pulsa...
— ...e sonha... por intermédio daqueles que, tal como nós, ali viajam.

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