« Em certas partes da floresta, onde as árvores envelhecem e o terreno afunda em depressões profundas, a paisagem adquire um carácter verdadeiramente terrível. Os troncos maciços, despedaçados e enegrecidos pelas tempestades de séculos, erguem-se como monumentos de decadência no meio da floresta viva. Os seus vastos ramos, despojados de folhagem, estendem-se como os braços de algum fantasma gigantesco. O ar torna-se pesado e o espírito, oprimido pela solidão, começa a imaginar formas entre as sombras. Há aqui uma solenidade, uma grandeza não alegre mas opressiva, que enche a alma de uma reverência próxima do temor. A natureza, em tais cenários, parece afirmar o seu domínio não pela beleza, mas pelo poder.»
William Gilpin, Remarks on Forest Scenery
"Quem sou eu se, despertando sem cessar, dia após dia, sou perseguido pelo eco de palavras ouvidas durante o sono: Sou um infiltrado dentro de um agente duplo esquizofrénico que sou. Quem sou eu se sou aquele que o diz, e quem sou eu se sou apenas aquele que o ouve? Foi então que compreendi como, em poucas palavras, se pode formar um labirinto."
— Recomecemos perguntando: que quererá dizer o autor desconhecido com esse despertar sem cessar?
— Estará ele a evocar a impossibilidade de reencontrar um estado estável que não seja nem completamente desperto nem totalmente adormecido...?
— Chamaria a isso uma imagem oscilante?
— Sim, uma imagem que oscila entre dois estados...
— Entre o sonho e a realidade?
— Exatamente. Ou entre a lucidez e a confusão...
— E de onde viriam essas imagens?
— Seriam como ecos ressoando no estado de vigília.
— Ecos vindos de onde?
— Daquilo que é ouvido durante o sono, suponho eu... e que provavelmente representa ideias obsessivas...
— Como uma mensagem!
— É isso mesmo! Uma mensagem cifrada pelo inconsciente e que insiste...
— O que representaria também uma espécie de despertar sem fim...
— Perseguido por ecos!
— Eu falaria mesmo de ecos insistentes:
"Sou um infiltrado dentro de um agente duplo esquizofrénico que sou."
— Concordaria em dizer que, relativamente a esse “que sou” final, existe aí um duplo sentido?
— Tem razão. Uma possível confusão entre o verbo ser e o verbo seguir.
— Segue-me... ou sente-se desencorajado?
— Desencorajado, certamente que me sinto... mas sigo-o... mais ou menos...
— Nada posso esperar — e pouco espero — da humilde confissão da minha ignorância e imperfeição; mas saiba que, por pouco que seja, avanço na sua sombra, infinitamente abaixo de si, e não perco a esperança de aí encontrar alguma chave!
— Que admirável sagacidade!
— Basta de elogios suspeitos, peço-lhe. Ofereça-nos rapidamente alguma chave luminosa que nos possa esclarecer... mas sem ofuscar a glória da nossa descoberta!
— Queira perdoar o meu pouco zelo... mas não é por ousadia que devemos fazê-lo cogitar. Quanto ao que me pede, por agora não possuo mais do que o senhor...
— E o enigmático animal, que não se privou de ocupar o seu lugar no nosso palco, não lhe deu nenhuma? De que espera para o pôr ao trabalho?
— Senhor, devo tomar esta missiva como um assentimento... que prevejo fecundo?
— Cuidado com a sua linguagem; há palavras que petrificam aquele que as pronuncia!
Dito isto, fez-se um silêncio salutar... e, se o mistério ganhou amplitude, as línguas começaram pouco a pouco a soltar-se...
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