– Pretendemos testemunhar.
– Pretendemos?
– Não é essa a nossa função?
– É precisamente isso que me inquieta. Uma testemunha relata aquilo que aconteceu. Ora, nós não paramos de falar. Quem poderia garantir que as nossas palavras nada acrescentam?
– Não acrescentar nada já seria acrescentar alguma coisa.
– Como assim?
– O silêncio também modifica uma narrativa.
– Eis uma resposta de papagaio.
– Eis uma resposta de testemunha.
– Mas somos testemunhas?
– Estamos presentes.
– Estar presente não basta.
– Não. Pode-se estar lá sem estar verdadeiramente presente.
– E pode-se ver sem realmente assistir.
– Aí está a palavra.
– Qual?
– Assistir.
– Porque possui dois sentidos?
– Porque talvez possua apenas um. Assistir é permanecer junto.
– Junto de quê?
– De um acontecimento. De uma pessoa. De uma aparição. Do Menino Lua... ou pouco importa. É preciso permanecer suficientemente perto para que algo nos alcance.
– Então não somos simples espectadores.
– Os espectadores por vezes observam de longe.
– E as testemunhas?
– Levam consigo aquilo que viram.
– Como um fardo?
– Como uma dívida.
– Isto está a tornar-se muito sério para dois papagaios.
– Quem disse que somos papagaios?
– Os desenhos.
– Mostram formas.
– E as formas mentem?
– Não. Dizem outra coisa.
– Então não somos apenas testemunhas.
– Receio que não.
– Ou espera que não.
– Talvez.
– Porque existe um problema.
– Qual?
– Se fôssemos testemunhas perfeitas, repetiríamos exatamente.
– Como ecos.
– Como máquinas.
– Como espelhos.
– Ora, nós nunca repetimos exatamente.
– Uma inflexão muda.
– Uma palavra desliza.
– Uma imagem aparece.
– Outra desaparece.
– Um ligeiro desvio.
– Eis a palavra certa.
– Desvio?
– Sim. Uma diferença transportada pelo movimento... tão pequena que parece acidental.
– E, no entanto, a narrativa fica deslocada.
– Deslocada, mais do que corrigida.
– Como uma ilha à deriva.
– Como um desenho copiado por outra mão.
– Como uma carta relida muitos anos mais tarde.
– Assim, nunca testemunhamos apenas um acontecimento.
– Testemunhamos também o nosso encontro com ele.
– O que equivale a dizer que nos tornamos atores.
– Relativamente.
– Relativamente?
– Não inventamos o mundo.
– Mas modificamos a sua trajetória... pela maneira como o contamos.
– Pela maneira como o escutamos... porque escutar também modifica.
– Muito mais do que se pensa.
– Então, o que somos?
– Testemunhas que assistem.
– No duplo sentido de assistir?
– No duplo sentido.
– Assistimos à história.
– E assistimos a história.
– Permanecemos junto dela.
– Até que ela possa continuar sem nós.
– Tem a certeza?
– Não.
– Eu também não.
– Talvez uma narrativa nunca continue sem aqueles que a contam.
– Isso dar-nos-ia demasiada importância.
– Demasiada.
– Então digamo-lo de outra forma.
– Estou a ouvi-lo.
– Talvez sejamos menos os guardiões da narrativa do que um dos seus lugares de passagem.
– Uma passagem?
– Sim. Algo atravessa a nossa voz.
– E sai ligeiramente diferente.
– Como o vento entre os ramos.
– Como o mar entre as ilhas.
– Como a luz entre as páginas.
– ...ou as praias.
– Eis mais um desvio.
– Talvez... mas sem esses desvios talvez não houvesse história.
– Apenas arquivos.
– Apenas repetições... ou apenas testemunhas.
– Quando uma narrativa precisa de outra coisa.
– De quê?
– De uma diferença suficientemente pequena para se parecer com uma memória... e suficientemente grande para se tornar um futuro.
– Portanto, não somos nem totalmente testemunhas nem totalmente atores.
– Nem totalmente autores... nem totalmente personagens.
– Então, o que somos?
– Não sei...
– Eu também não.
– Talvez seja precisamente por isso que temos a palavra...
– Pretendemos?
– Não é essa a nossa função?
– É precisamente isso que me inquieta. Uma testemunha relata aquilo que aconteceu. Ora, nós não paramos de falar. Quem poderia garantir que as nossas palavras nada acrescentam?
– Não acrescentar nada já seria acrescentar alguma coisa.
– Como assim?
– O silêncio também modifica uma narrativa.
– Eis uma resposta de papagaio.
– Eis uma resposta de testemunha.
– Mas somos testemunhas?
– Estamos presentes.
– Estar presente não basta.
– Não. Pode-se estar lá sem estar verdadeiramente presente.
– E pode-se ver sem realmente assistir.
– Aí está a palavra.
– Qual?
– Assistir.
– Porque possui dois sentidos?
– Porque talvez possua apenas um. Assistir é permanecer junto.
– Junto de quê?
– De um acontecimento. De uma pessoa. De uma aparição. Do Menino Lua... ou pouco importa. É preciso permanecer suficientemente perto para que algo nos alcance.
– Então não somos simples espectadores.
– Os espectadores por vezes observam de longe.
– E as testemunhas?
– Levam consigo aquilo que viram.
– Como um fardo?
– Como uma dívida.
– Isto está a tornar-se muito sério para dois papagaios.
– Quem disse que somos papagaios?
– Os desenhos.
– Mostram formas.
– E as formas mentem?
– Não. Dizem outra coisa.
– Então não somos apenas testemunhas.
– Receio que não.
– Ou espera que não.
– Talvez.
– Porque existe um problema.
– Qual?
– Se fôssemos testemunhas perfeitas, repetiríamos exatamente.
– Como ecos.
– Como máquinas.
– Como espelhos.
– Ora, nós nunca repetimos exatamente.
– Uma inflexão muda.
– Uma palavra desliza.
– Uma imagem aparece.
– Outra desaparece.
– Um ligeiro desvio.
– Eis a palavra certa.
– Desvio?
– Sim. Uma diferença transportada pelo movimento... tão pequena que parece acidental.
– E, no entanto, a narrativa fica deslocada.
– Deslocada, mais do que corrigida.
– Como uma ilha à deriva.
– Como um desenho copiado por outra mão.
– Como uma carta relida muitos anos mais tarde.
– Assim, nunca testemunhamos apenas um acontecimento.
– Testemunhamos também o nosso encontro com ele.
– O que equivale a dizer que nos tornamos atores.
– Relativamente.
– Relativamente?
– Não inventamos o mundo.
– Mas modificamos a sua trajetória... pela maneira como o contamos.
– Pela maneira como o escutamos... porque escutar também modifica.
– Muito mais do que se pensa.
– Então, o que somos?
– Testemunhas que assistem.
– No duplo sentido de assistir?
– No duplo sentido.
– Assistimos à história.
– E assistimos a história.
– Permanecemos junto dela.
– Até que ela possa continuar sem nós.
– Tem a certeza?
– Não.
– Eu também não.
– Talvez uma narrativa nunca continue sem aqueles que a contam.
– Isso dar-nos-ia demasiada importância.
– Demasiada.
– Então digamo-lo de outra forma.
– Estou a ouvi-lo.
– Talvez sejamos menos os guardiões da narrativa do que um dos seus lugares de passagem.
– Uma passagem?
– Sim. Algo atravessa a nossa voz.
– E sai ligeiramente diferente.
– Como o vento entre os ramos.
– Como o mar entre as ilhas.
– Como a luz entre as páginas.
– ...ou as praias.
– Eis mais um desvio.
– Talvez... mas sem esses desvios talvez não houvesse história.
– Apenas arquivos.
– Apenas repetições... ou apenas testemunhas.
– Quando uma narrativa precisa de outra coisa.
– De quê?
– De uma diferença suficientemente pequena para se parecer com uma memória... e suficientemente grande para se tornar um futuro.
– Portanto, não somos nem totalmente testemunhas nem totalmente atores.
– Nem totalmente autores... nem totalmente personagens.
– Então, o que somos?
– Não sei...
– Eu também não.
– Talvez seja precisamente por isso que temos a palavra...
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