mardi 30 juin 2026

(130) A abracadabrante história da Criança Lua


« A personagem que nasce na obra não é uma pessoa. É aquilo que permanece em retiro, na fronteira entre o ser e o não-ser, figura de um possível sem realidade, sem consistência, mas carregada de todas as potências do devir. Ela não se torna; é o próprio devir, sempre já outra, jamais acabada. Não somos nós, nem é um outro: é uma ficção à procura de uma forma, uma palavra que ainda não encontrou o seu corpo.»

Maurice Blanchot, O Espaço Literário


— Meu caro, reconheço no vosso olhar esse fogo que falta a tantos críticos. Mas suplico-vos: deixai, de vez em quando, que o mundo surja antes de o examinardes imediatamente. Escutai a sua matéria como uma criança escuta as ondas. Nem que seja por um minuto... ou por alguns segundos...
— Permiti-me fazer-vos uma pergunta...
— Com todo o gosto.
— Quem sois vós?
— O meu nome nada vos diria, mas talvez já tenhais ouvido falar de mim... Habito neste Arquipélago...
— Quase parece um sonho... Eis que encontramos pedaços de um boneco nesta ilha. Um braço articulado, uma cabeça que rola pelas rochas, um torso oco como uma concha vazia. Que mais haverá? Quem terá julgado oportuno trazer Pinóquio até aqui? Será um ritual... uma brincadeira... ou uma instalação artística? Ou então... outra coisa?
— Olhai... a madeira é antiga, mas não apodreceu. Resistiu à humidade, ao sal e ao fogo. Poderia muito bem ser pinho. Parece... uma presença estrangeira e, no entanto, curiosamente... perfeitamente integrada na paisagem. Como se a própria ilha a tivesse sonhado.
— Não. A ilha não sonha. Sois vós que lhe emprestais as vossas fantasias. Se este boneco está aqui, é porque alguém o colocou neste lugar. E com ele deixou uma intenção ou uma mensagem. Talvez até uma provocação.
— Também pode ser uma oferenda, vede. Uma oferenda ao vivo, ao devir. Vós vedes... um simulacro.
— Eu vejo uma metamorfose. Este boneco não é um erro; é uma etapa. É a matéria que se ergue, que reclama um nome.
— Então não vedes a ironia? Este boneco, nesta ilha de escórias e enxofre, é um parasita. Um artefacto, um intruso de madeira no coração do caos mineral. É a imagem perfeita da nossa negação. Mesmo aqui, neste deserto telúrico, continuamos a fazer surgir um reflexo de nós próprios.
— Isso não é deslumbramento; é narcisismo.
— Não, é memória. Pinóquio, o Outro — pois é dele que se trata, como o próprio nome indica — não somos nós; é outra coisa. Uma figura do incompleto, do imperfeito, do quase. Neste Arquipélago que palpita sem sequer possuir um nome, ele torna-se uma consciência embrionária. É aquilo que vacila entre o mundo e a fábula.
— Sois incorrigível. Fazeis de um boneco uma cosmogonia. Mas seja. Aceitemos, por um instante, a vossa poesia. Porque ele, então? Porque Pinóquio?
— Pinóquio... o Outro!
— Porque este mentiroso de madeira, este pequeno corpo sempre em falta?
— Porque ele é um arquétipo da dúvida. E do desejo. Deseja tornar-se verdadeiro, mas já está vivo. Mente, e é essa mentira que o transforma. Não é uma falta; é uma astúcia iniciática. E, nesta ilha de lava e cinza, torna-se o totem perfeito: o ser que se procura sem jamais se concluir.

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