samedi 27 juin 2026

(126) A abracadabrante história da Criança Lua


« Poder-se-ia, portanto, dizer, de um modo aparentemente paradoxal, que a própria coisa é aquilo que, embora de certo modo transcenda a linguagem, só é, no entanto, possível na linguagem e em virtude da linguagem: a coisa da linguagem.»

Giorgio Agamben, A Potência do Pensamento, Rivages Poche


Excerto do diário de Sangue Quente

Uma espécie de gruta surgira atrás de nós. Um instante antes, tenho a certeza, ela não estava ali. Também é verdade que o instante anterior fora extremamente agitado e que foi quase um milagre ver tudo — as coisas, o tempo, os ventos, as lonas e os espíritos... sobretudo o de Dom Cenoura — acalmar-se. Como se nada tivesse acontecido e com uma certa altivez, que um espírito estranho à história poderia tomar por nobreza, voltou a falar com serenidade e rigor.
— Acautelai-vos, Sangue Quente — disse-me ele. — É difícil de acreditar... mas... o circo e os rochedos formam um todo, e pode ser perigoso querer conhecer esse todo em profundidade. O caminho que conduz aos suspiros subterrâneos da terra viva não é o mesmo que permite regressar deles.
O lirismo naturalista de Dom Cenoura e a sua perceção do mundo como um organismo em perpétua génese, tal como o concebia — uma grande unidade viva, tecida de história, de fogo, de sopro e de fluxos invisíveis — era isso, poder-se-ia dizer, que Sangue Quente teria afirmado depois de tomar conhecimento do que estava escrito no caderno de Dom Cenoura... enfim, devemos à verdade, e também aos muito eventuais leitores destas páginas, reconhecer que, precisamente naquele momento, não foi isso que aconteceu.
Primeiro, porque a caligrafia de Dom Cenoura era de natureza absolutamente ilegível; depois, porque, ainda que tivesse sido legível, teria permanecido incompreensível. Salvo que, por razões perfeitamente incompreensíveis, não o era... ou, pelo menos, não o era inteiramente para Sangue Quente, que, apesar disso, estava muito longe de poder ser considerado um intelectual.
— Parece-me discernir nestes escritos uma certa verdade subtil — certamente subjetiva, como toda a verdade... mas tenho a impressão de que Dom Cenoura não me diz tudo. Alguns indícios levam-me a pensá-lo, embora eu ainda não consiga pô-los em palavras; surgem com uma regularidade bastante curiosa. Pode até ser que as profundezas de que ele fala — as desta ilha e as dele próprio — formem, receio-o tanto quanto, de certo modo, o desejo, um único todo inseparável.
— Talvez saibais, Sangue Quente, até que ponto estamos saturados de imagens e de narrativas...
— Surpreendeis-me, Dom Cenoura! Dizer que sois vós quem me diz isso! Vós, que nunca cessais de escrever e desenhar nos vossos cadernos! Mal posso acreditar nos meus...
— Silêncio, Sangue Quente! Ver aquilo em que se acredita não significa sucumbir a uma ingenuidade religiosa ou conspiratória; significa reconhecer que a visão já está estruturada, encenada, organizada segundo uma grelha de inteligibilidade que incorporámos antes mesmo de começarmos a olhar.
Estupefacto, Sangue Quente não conseguiu conter-se e interrompeu-o.
— E o inverso?
— O inverso, acreditar naquilo que se vê, é a forma contemporânea da submissão à evidência... àquilo que a imagem mostra, ao que o número afirma, ao que a autoridade declara, como se toda a mediação tivesse desaparecido.
— A evidência apenas aprofunda a distância que nos separa, Dom Cenoura... Tornou-se comum pensar que vivemos na era da «pós-verdade», como se a verdade tivesse alguma vez sido esse rochedo imóvel contra o qual o pensamento se confronta.
— Mas a verdade, Sangue Quente, tanto nos regimes do saber como nos do poder, é sempre uma questão de montagem. Não se trata de opor a mentira à realidade, mas de compreender a maneira como se constitui um «visível» que, à força de repetição, acaba por se tornar credível. A imagem não é um documento neutro; é um dispositivo. A crença, aqui, não pertence ao domínio da adesão voluntária, mas ao da ordem implícita do mundo. A criança...
Dom Cenoura interrompeu-se por um instante. Uma ligeira hesitação. Sangue Quente percebeu-a.
— Cá estamos... — pensou consigo.
— As crianças... enfim... nem todas... em suma, a criança não acredita na escola...
— Então, que faz ela?
— Pela força das circunstâncias, aprende a acreditar nela vendo aquilo que lhe é apresentado como sendo a «verdadeira» cultura, a «boa» palavra, a posição «justa». O espectador não acredita num documentário porque seja ingénuo, mas porque o filme soube ativar todos os sinais de autenticidade: uma narração neutra, a ausência de música dramática, a imagem granulada. E o cidadão não acredita na legitimidade do poder porque tenha analisado racionalmente os seus mecanismos: acredita naquilo que vê na televisão e vê aquilo em que sempre acreditou como sendo a ordem natural das coisas.


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