« As páginas de um livro delimitam um espaço fechado, retirado do mundo imediato. Esse afastamento atua como uma concentração. Uma luz interior começa a surgir, não sobre o papel em si, mas no próprio ato da leitura. E essa luz ilumina menos os objetos do que as próprias condições da perceção. Ela ilumina os sentidos antes de iluminar... o sentido. »
Com toda a liberdade que autorizam os meandros da memória... e onde a assinatura se torna assim uma escrita sem autor identificável, Lucian, caminhante curioso e aplicado... talvez até implicado, observa tudo com uma atenção quase animal...
Caderno de Lucian
À primeira vista, as ilhas mal se movem, mas algo circula entre elas. Um murmúrio, um sopro, uma expectativa. São como guardiãs de um enigma. A sua simples presença confere a este arquipélago a aparência de um santuário, de um lugar onde o imaginário naufragou e começou a respirar.
Nos arredores, quando o olhar se torna mais atento, outras ilhas parecem ainda mudar de forma ao ritmo dos dias e das marés. Algumas afundam-se lentamente, deixando entrever as palmas submersas de uma floresta fóssil; outras emergem por vastas porções... uma pluma de fumo, uma chuva de cinzas, depois o surgimento de um novo cone, fumegante e carbonizado. Estas ilhas nascem, desmoronam-se e transformam-se numa escala que nenhum calendário humano consegue verdadeiramente conter. Algumas delas, contudo, possuem uma espécie de assinatura... ilegível para o caminhante apressado.
Num sentido profundo, quase alquímico, a «assinatura» designa aquilo através do qual uma coisa manifesta o que é, sem o dizer explicitamente. Pensamos aqui na tradição da signatura rerum: a ideia de que as coisas trazem em si sinais da sua própria natureza. Uma planta, pela sua forma, «assina» o seu uso; uma pedra, pela sua textura, «indica» a sua potência. A assinatura deixa então de ser um ato humano para se tornar uma maneira de o próprio mundo se marcar, de se tornar legível.
Como já foi dito... o caminho humano nunca se inscreve sobre um solo virgem. Traça-se sempre sobre uma matéria já aberta, já marcada, já exposta. Agora sei-o. Outros, antes de mim, percorreram este caminho e aí depositaram os seus vestígios... alguns dos quais permanecem ainda invisíveis para mim... e a maioria dos quais continua, por enquanto, indecifrável...

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