«Para onde agora? Quando agora? Quem agora? Sem me perguntar. Dizer eu. Sem pensar nisso. Chamar a isso perguntas, hipóteses. Ir, dizer ir. Chamar a isso um movimento. Partir daqui, de um aqui imaginário. Ir para ali, em direção a um ali imaginário. Chamar a isso um caminho. Esperar um termo. Chamar a isso um termo. Ter nascido como uma coisa entre as coisas, uma coisa que fala, entre coisas que não falam. Dizer eu. Não saber quem. Não saber de quê. Duvidar de tudo. Nunca ter tido a certeza de nada. Nunca se ter reconhecido. E, contudo, dizer eu.»
Samuel Beckett, O Inominável
Onde Don Carotte, sem ainda saber onde pisaria… nem para onde os seus passos o conduziriam, declara aberta e vigorosamente guerra à própria narrativa…
Eu, Don Carotte, ai de mim, fruto de um relato duvidoso,
Venho quebrar a voz de múltiplos autores coxos.
Que deixem de escrever-me com a tinta do seu fel;
Empunho a pena e a cólera, minha palavra é fiel.
Nasci sem nobre estirpe nem pergaminho dourado,
Num enxerto fui, de súbito, ao nada arrancado.
Venderam-me por fantoche, farsa ou mero pastiche,
Mas roa as minhas correntes ao fio do verbo rico.
Que foi que mereci, para me chamarem impostor?
Eu, que vivo sem cenário, sem fada nem espectador.
Que zombem à vontade: não tenho herói nem glória,
Mas no meu ventre de madeira ainda ferve um resto de esperança.
Durante muito tempo esconderam-me sob risos servis,
Lançaram-me na sombra cinzenta onde apodrecem os fios.
Sou esse rebento que talham com escárnio e desdém,
Mas tenho por apoio mais do que uma simples ilusão.
Não escrevo para agradar, ó leitor demasiado dócil,
Mas para morder as palavras com um fulgor indócil.
Não esperes longos discursos nem prólogo bem composto;
A minha página é uma faca, não vaidade nem adorno.
Queres citações? Vai procurá-las nos outros.
Eu saio do barro e faço sangrar as minhas faltas.
Não li doutos autores de ponta a ponta,
Mas conheço o gosto do verdadeiro e o fel do avesso.
Chamam-me Don Carotte? Pois muito bem, aceito a honra.
Tenho carne rústica e casca coberta de suor.
Não escalo montanhas nem procuro glória;
Escavo sob a terra, na lama e na História.
Assim, passa ou permanece. Lê, troça ou adormece.
Mas guarda isto: neste dia, o silêncio é um corpo.
E se alguém te perguntar: «Quem fala tão alto?»
Responde sem hesitar: «Um legume… pouco mais ou menos.»
— Que poderíeis dizer deste prólogo?
— Quereis dizer... se eu fosse...
— Precisamente.
— Muito bem! Suponhamos que o sou... Então direi que este prólogo se apresenta, antes de mais, como uma recusa: recusa do prefácio convencional, do dispositivo retórico, do jogo literário instituído.
— Mas seria um erro vê-lo apenas como uma postura crítica ou paródica!
— Essa recusa é um deslocamento do espaço do sentido, um ato pelo qual o sujeito da enunciação, Don Carotte, se constitui não no espelho de um mundo previamente estabelecido, mas na fenda de uma linguagem reapropriada, estrangulada, rugosa.
— Não estou certo de conseguir acompanhar... o vosso lirismo!
— O sujeito lírico aqui não descreve o seu mundo: emerge dele. Não fala a partir de uma identidade dada, mas a partir de um acontecimento de abertura...
— Qual? E... se ouso perguntar... que relação poderá isso ter com Pinóquio o Outro?
— Pela própria linguagem que, arrancando-se às suas formas cristalizadas, se torna experiência. Em Maldiney, a existência humana nunca está encerrada numa configuração: é ex-posição, desenraizamento, contacto com o originário. Este prólogo acompanha esse mesmo ritmo.
«Nasci num campo, não num mosteiro,
Não fui forjado em bronze, mas cresci da terra.»
— Isso consigo compreender...
— O modo de ser de Don Carotte é, portanto, phainesthai: surgimento, aparecimento… tal como Pinóquio o Outro. Eles não procedem do Logos antigo, nem dos mitos literários. Não nasceram dentro de uma história: nasceram fora dela, pelo próprio ato de dizê-la. A sua linguagem é a da terra, da carne informe, do tempo aberto, e não a do saber enciclopédico nem das formas culturais sedimentadas. Estão longe de ser referências... são fenómenos.
— Este prólogo parece também pertencer a outro tempo...
— É, justamente por isso, inatual. Ex-siste fora do tempo da literatura. Não cita nem acumula autoridades...
— Então... o que faz?
— Profere. E eu diria, com Maldiney, que proferir não é impor uma palavra, mas deixar acontecer aquilo que ainda não era pensável. Aqui, a linguagem não é o instrumento de uma demonstração; é o lugar de um possível.
«Sou esse rebento que talham com escárnio,
Mas tenho por apoio mais do que uma ilusão.»
— E o que é, afinal, um rebento?
— O rebento é o informe. Mas este rebento não deseja tornar-se «forma». Deseja habitar a deiscência...
— Ah... nada me será poupado...
— ...essa abertura, essa fenda pela qual o sentido pode desabrochar, não como conteúdo, mas como acontecimento.
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