samedi 25 juillet 2026

(156) A abracadabrante história da Criança Lua


Onde os papagaios, aproveitando a ausência — aliás, muito relativa — dos viajantes e, tendo desde há muito ocupado o seu lugar no cenário, tomam também a palavra, esperando mostrar-se dignos do seu mestre... e... objetivamente, descobrir, se não onde estão, pelo menos de onde poderão vir.


— Não deixo de me maravilhar... vede...
— Maravilhar-vos com quê?
— Com o facto de ser...
— Ser onde?
— Ser aqui... simplesmente.
— Esse espanto parece-me muito antigo.
— Mais antigo do que eu, precisamente. Porque eu já era antes de saber que era. Nesse tempo vivia e sentia. Acontecia-me distinguir confusamente aquilo que me convinha daquilo que me feria. Procurava a verdade... enquanto receava o erro. Ligava-me ao que amava... e, no entanto, não me recordo de ter escolhido nenhuma dessas coisas.
— Suponho que desejais recordar o vosso começo.
— Quem o não desejaria?
— Volto-me para os meus primeiros anos como quem contempla uma margem envolta em nevoeiro. Sei que ali vivi... mas não posso dizer como. Sei que falei... sem jamais conseguir ouvir de novo a primeira palavra. Sei que amei... mas não consigo reencontrar o primeiro amor. Tudo isso está em mim como a luz está na aurora...
— Presente antes de ser vista.
— Talvez essa seja a nossa condição.
— Qual?
— Habitar riquezas cuja origem ignoramos.
— A memória... tal como a língua, precede-nos.
— Tal como o desejo...
— Chegamos ao meio de uma obra já começada.
— Sim.
— E é isso que nos perturba.
— Porque descobrimos por toda a parte os sinais de uma anterioridade.



— Como se encontrássemos caminhos antes mesmo de sabermos caminhar.
— E encontramos palavras antes de termos falado.
— Pensamentos chegam até nós antes de sabermos pensar.
— E, contudo, todos eles se tornam vossos... ou nossos...
— Como pode isso acontecer?
— Tornam-se nossos... como uma herança chega ao herdeiro.
— Que a recebe... a transporta...
— E a transforma... mas não a inventa.
— Falais como se a própria alma fosse precedida.
— Como poderia não o ser? Olhai para o Menino Lua.
— Vejo-o avançar por paisagens que não parece ter construído.
— Vede como as imagens, tal como os relatos, vêm até ele.
— Tudo vem até ele.
— Ele acolhe-as.
— Depois, como não o ouvir? São essas mesmas imagens que falam pela sua voz.
— Mas quem dirá onde estavam... antes de chegarem até ele?
— Talvez em parte nenhuma...
— Talvez em toda a parte... Porque as coisas mais profundas têm esta estranheza: parecem esperar por alguém para aparecer...
— E, no entanto, já existiam!
— Assim acontece com a palavra.
— Sim... essa palavra que ninguém dá a si próprio...
— Recebemo-la antes de a compreendermos.
— Servimo-la antes de a possuirmos.
— Habitamo-la antes de sabermos que ela nos habita.
— Isso deveria reduzir consideravelmente o nosso orgulho...
— Sobretudo, esclarece a nossa liberdade.
— Como assim?
— Porque a liberdade talvez não seja começar.
— Então o que será?
— Responder.
— Responder a quê?
— Àquilo que já estava lá. Àquilo que esperava na sombra.
— Quereis falar dessa antiga luz da qual não somos nem a fonte nem o termo?


— Então nunca seremos a origem.
— Não.
— Mas podemos ser a passagem.
— Apenas a passagem?
— Não digais «apenas». Uma nascente escondida precisa de um leito para se tornar rio.
— Assim como a luz precisa de uma janela para entrar num quarto, a palavra precisa de uma voz para atravessar o tempo.
— Então não somos os autores.
— Talvez não.
— Nem os proprietários.
— Certamente que não.
— Então, o que somos?
— Lugares.
— Lugares?
— Sim. Lugares onde alguma coisa aparece. Lugares onde alguma coisa se recorda...
— Compreendi... lugares onde alguma coisa procura regressar.
— Regressar de onde?
— É precisamente isso que ignoro... e é por isso que me maravilho. Porque, quanto mais me aproximo da minha origem... mais ela se afasta.
— Deixai-me continuar... E quanto mais ela se afasta,
mais ilumina o caminho.
— Como uma estrela.
— Ou como uma lembrança de que ninguém se lembra,
e que, no entanto, se lembra de nós.


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