— Ouvis essa voz de outrora?
— Parece-me, se não me demorar no timbre... ouvir a voz do nosso mestre.
— Parece-me, se não me demorar no timbre... ouvir a voz do nosso mestre.
«E, contudo, Senhor, eu já existia, e vivia, e sentia, e cuidava da minha própria conservação, obscuro testemunho daquela unidade misteriosa de onde eu viera. Conservava, por um sentido interior, a integridade dos meus sentidos e, mesmo nas coisas mais pequenas, nos mais ínfimos pensamentos, saboreava a verdade; não queria ser enganado; a minha memória era forte; estava armado da palavra; as doçuras da amizade prendiam-me; compreendia a ignorância... mas fugia da dor e da abjeção.
Que há aqui que não seja admirável e espantoso? Mas tudo isto eram dons do meu Deus. Não fui eu quem mos deu; eles são bons, e é deles que eu sou.
Não me lembro de ter começado a ser criança; e, contudo, fui criança. Onde estava eu, então, e de onde vim para aqui? Quem mo dirá? Nem o meu pai nem a minha mãe mo podem ensinar, nem a experiência dos outros, nem a minha própria memória. Talvez Te rias de mim por fazer tais perguntas, e me ordenes antes que Te louve e Te confesse por aquilo que sei de mim.»
Santo Agostinho, Confissões
— Com toda a honestidade... compreendestes tudo... agora que se calou essa voz, que, disso estou certo, não é a do nosso mestre?
— O que aqui impressiona, vede vós, é que a anterioridade não é simplesmente uma ideia abstrata...
— Então, que é ela?
— É experimentada como um enigma vivido.
— Um pouco como nós...
— Agostinho não diz apenas: «venho de antes de mim.» Constata que já vive em capacidades... falar... amar... recordar... discernir... que não fundou por si mesmo.
— Muito bem... perdoai a impertinência... tal como nós...
— Há aqui uma forma de dívida sem culpa, exatamente como no Menino Lua: não culpabilidade, mas precedência.
— Não conhecia essa palavra...
— Não é nosso papel inventá-las...
— Como ele diz: «Não fui eu quem mos deu.»
— A frase poderia quase transpor-se palavra por palavra para a língua.
— Sim... mas, para ele, a palavra já está nele antes de poder responder por ela como origem. É-lhe dada, mas sem um doador identificável na ordem humana.
— Então estaria nele... antes mesmo de a ouvir...
— Ela circula, inscreve-se, experimenta-se... e ele experimenta-a... tudo isto sem um ponto de partida que se possa assinalar.
— Isso contraria a nossa natureza... e poderia dar-nos ideias...
— É precisamente nessa distância que habita o limite de toda a liberdade absoluta...
— Ele fala sempre a partir de um lugar que nos precedeu.
— É desse lugar que parece surgir aqui o deslizamento final das vozes, que já não procuram verdadeiramente uma explicação.
— Poderiam ser as nossas... salvo pela procura...
— Passam da pergunta «de onde venho?» para a experiência do próprio espanto.
— É também assim que procede o nosso mestre... enquanto uma pergunta permanece sem resposta, ela torna-se louvor.
— E nós poderíamos perfeitamente permanecer nesse entre-dois, onde já não sabemos se dialogamos e pensamos em conjunto...
— ...ou se uma única voz se reflete em dois espelhos.
Onde se pode ver que os papagaios permanecem ainda personagens. Aqui, para o bom andamento da obra em curso, seria necessário que se tornassem quase vozes sem rosto, réplicas que se respondem numa mesma consciência. O leitor já não deveria distinguir claramente quem fala. Pouco a pouco, se tal fosse possível... o seu mestre deveria aparecer por detrás deles, como uma imagem dentro de outra imagem, um retrato fantasma atravessando o desenho.
Aproximei, por isso, a linguagem da das Confissões, dando-lhe, ao mesmo tempo, maior amplitude e fôlego.
— Não deixo de me maravilhar... vede...
— Com quê?
— Com o facto de ser.
— Ser onde?
— Ser aqui... simplesmente.
— Esse espanto parece-me muito antigo.
— Mais antigo do que eu, precisamente. Porque eu já era antes de saber que era. Nesse tempo vivia e sentia. Acontecia-me distinguir confusamente aquilo que me convinha daquilo que me feria. Procurava a verdade... enquanto receava o erro. Ligava-me ao que amava... e, no entanto, não me recordo de ter escolhido nenhuma dessas coisas.
— Suponho que desejais recordar o vosso começo.
— Quem o não desejaria?
— Volto-me para os meus primeiros anos como quem contempla uma margem envolta em nevoeiro. Sei que ali vivi... mas não posso dizer como. Sei que falei... sem jamais conseguir ouvir de novo a primeira palavra. Sei que amei... mas não consigo reencontrar o primeiro amor. Tudo isso está em mim como a luz está na aurora...
— Presente antes de ser vista.
— Talvez essa seja a nossa condição.
— Qual?
— Habitar riquezas cuja origem ignoramos.
— A memória... tal como a língua, precede-nos.
— Tal como o desejo...
— Chegamos ao meio de uma obra já começada.
— Sim.
— E é isso que nos perturba.
— Porque descobrimos por toda a parte os sinais de uma anterioridade.
— Como se encontrássemos caminhos antes mesmo de saber caminhar.
— E encontrássemos palavras antes de termos falado.
— Pensamentos chegam até nós antes de sabermos pensar.
— E, contudo, todos eles se tornam vossos... ou nossos...
— Como pode isso acontecer?
— Tornam-se nossos... como uma herança chega ao herdeiro.
— Que a recebe... a transporta...
— E a transforma... mas não a inventa.
— Falais como se a própria alma fosse precedida.
— Como poderia não o ser? Olhai para o Menino Lua.
— Vejo-o avançar por paisagens que não parece ter construído.
— Vede como as imagens, tal como os relatos, vêm até ele.
— Tudo vem até ele.
— Ele acolhe-as.
— Depois, como não o ouvir, são essas imagens que falam pela sua voz.
— Mas quem dirá onde estavam... antes de chegarem até ele?
— Talvez em parte nenhuma...
— Talvez em toda a parte... Porque as coisas mais profundas têm esta estranheza: parecem esperar por alguém para aparecer,
— E, no entanto, já existiam!
— Assim acontece com a palavra.
— Sim... essa palavra que ninguém dá a si próprio...
— Recebemo-la antes de a compreendermos.
— Servimo-la antes de a possuirmos.
— Habitamo-la antes de sabermos que ela nos habita.
— Isso deveria reduzir consideravelmente o nosso orgulho...
— Sobretudo, esclarece a nossa liberdade.
— Como assim?
— Porque a liberdade talvez não seja começar.
— Então o que será?
— Responder.
— Responder a quê?
— Àquilo que já estava lá. Àquilo que esperava na sombra.
— Quereis falar dessa antiga luz da qual não somos nem a fonte nem o termo?
— Então nunca seremos a origem.
— Não.
— Mas podemos ser a passagem.
— Apenas a passagem?
— Não digais «apenas». Uma nascente escondida precisa de um leito para se tornar rio.
— Assim como a luz precisa de uma janela para entrar num quarto, a palavra precisa de uma voz para atravessar o tempo.
— Então não somos os autores.
— Talvez não.
— Nem os proprietários.
— Certamente que não.
— Então, o que somos?
— Lugares.
— Lugares?
— Sim. Lugares onde alguma coisa aparece. Lugares onde alguma coisa se recorda...
— Compreendi... lugares onde alguma coisa procura regressar.
— Regressar de onde?
— É precisamente isso que ignoro... e é por isso que me maravilho. Porque, quanto mais me aproximo da minha origem... mais ela se afasta.
— Deixai-me continuar... E quanto mais ela se afasta,
mais ilumina o caminho.
— Como uma estrela.
— Ou como uma lembrança de que ninguém se lembra,
e que, no entanto, se lembra de nós.

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