Onde se trata da assinatura… e da não-assinatura… a propósito dos desenhos que Igniatius lhe traz. Lucian, sempre seguindo as suas pegadas, mais do que nunca, deixa de tomar a assinatura como um simples detalhe acrescentado ou omitido; trata-a como o lugar onde tudo se decide. E onde, neste instante, algo do movimento que o atravessa atinge uma intensidade particular — embora não definitiva — que, justamente por não o ser, nada apaga nem funda. Limita-se a testemunhar que um devir está a passar por ele, com uma força que talvez nunca tivesse experimentado desta maneira. Já não é o tempo vivido que se redesenha; é a sua participação nesse tempo que, por um momento, se encontra mais profundamente afinada com o seu próprio movimento. É uma grande diferença, pensa ele em voz alta, porque retira ao presente toda a pretensão de se tornar um tribunal do passado.
Caderno de Lucian
No uso corrente, uma assinatura vem no fim. Inscreve-se à margem, em baixo, por vezes à direita, como um gesto de encerramento. Certifica. Liga uma forma a um nome. Fixa uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma propriedade. Uma assinatura «normal» funciona assim: separa e liga. Separa a obra daquilo que ela não é e liga a obra a um autor identificável. Diz: isto é meu. Permite o reconhecimento… ou a atribuição. Demoro-me neste conceito, vede, porque me parece impensável que os desenhos que me enviais não possam ser considerados como uma aparição… enquanto objeto identificável no mundo.
Dir-se-ia que essa assinatura pressupõe um sujeito já constituído. Alguém deveria saber que é o autor e poderia acrescentar o seu nome para selar esse saber. A assinatura viria confirmar uma origem supostamente clara, ainda que permanecesse misteriosa na sua profundidade. Seria um sinal de domínio retrospectivo: depois de escrever, o autor assina.
Mas aqui, nesta história, algo já não funciona assim.
A assinatura não está ausente.
Ela resiste.
E essa resistência não se deve apenas a uma dificuldade de leitura. Deve-se a uma transformação da sua própria função.
— Vede, Lucian, insisto: uma assinatura ilegível continua a ser uma assinatura visível, disse-me um dia Igniatius, num tom que eu imaginava cheio de subentendidos. Vê-se que há um nome, mesmo que não o consigamos decifrar. Continua a desempenhar o seu papel… marca um lugar, indica que existe um autor, ainda que oculto, prosseguiu.
Ora, aquilo que pressentimos — digo nós, porque incluo aqui todos os que, de perto ou de longe, tiveram acesso aos desenhos que Igniatius me trouxe — aquilo que pressentimos nesses desenhos é outra coisa… A assinatura já não é apenas ilegível.
Tornou-se invisível.
Não porque não exista, mas porque deixou de poder ser localizada. Já não ocupa um lugar preciso. Retira-se enquanto sinal distintivo e, no entanto, permanece — de outro modo. Condensa-se na própria forma. Isso significa que cada linha, cada tensão do traço, cada repetição, cada desvio traz consigo o vestígio daquele que «assina». Já não como nome, mas como maneira. Já não como marca acrescentada, mas como estilo difundido.
— Notai, Lucian, dizia ainda Igniatius, que, neste caso, a assinatura já não garante a origem… dispersa-a.
Já não se pode dizer: eis o autor, aqui, neste lugar… e, no entanto, alguma coisa continua a insistir através de tudo isto.
A assinatura, num sentido mais amplo, torna-se então aquilo que atravessa sem se mostrar. Já não é um sinal, mas um ritmo. Uma maneira de aparecer. Uma coerência interna que não se deixa reduzir a uma forma fixa.
— Poderíeis dizer, Lucian, tal como Igniatius, que a assinatura já não está no fundo do desenho; está na maneira como o desenho é feito, dizia-me Félix. E continuava:
— E é aqui que a palavra «desígnio» recupera toda a sua força. Numa assinatura clássica, o desígnio precede: o autor tem uma intenção, depois produz… antes de assinar. A ordem é clara… querer, fazer, assinar.
Aqui, essa ordem desfaz-se. O desígnio não é dado como intenção prévia. Surge apenas depois, como uma coerência que se reconhece sem que se consiga formulá-la. Algo foi feito, mas não se sabe por quem, nem porquê, e, no entanto, tudo permanece unido. Tudo insiste. Tudo regressa.
Vejo claramente o que isso implica.
A assinatura já não é a prova de um autor.
Torna-se o vestígio de uma passagem.
Algo… ou alguém… passou por aqui e deixou marcas. Mas esse algo não se deixa reduzir a uma identidade. É neste sentido que a assinatura é mais invisível do que ilegível. Não se esconde por detrás dos traços.
Está nos próprios traços.
E isso ilumina imediatamente aquilo que Igniatius nos dá a ver. Se ele transporta os desenhos, transporta também essa assinatura, sem, contudo, conseguir localizá-la. Não pode dizer: é ele. Nem sequer pode dizer: não sou eu. Porque a assinatura já não funciona como atribuição.
E, se levar o raciocínio ainda mais longe, então, neste tipo de configuração, assinar já não consiste em dizer: eu sou o autor.
Assinar consiste em deixar aparecer uma forma que traz em si mesma o vestígio daquilo que a produziu. E esse vestígio não é apenas um indício… anuncia uma espécie de tensão, aquela que existe entre o que se mostra e o que se retira. Entre a forma visível e a origem que recusa deixar-se fixar.
Assim, a assinatura torna-se paradoxal… Está em toda a parte… e em parte nenhuma.
É aquilo que torna o conjunto reconhecível, sem jamais se deixar isolar.
Antes de fechar este caderno, acrescentaria ainda que… numa situação comum, é o autor quem assina a obra.
Aqui, nestes desenhos, é a própria obra que assina alguma coisa do autor… sem jamais o nomear.

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