Onde podemos ver, tal como os papagaios, que, no fundo, cada um de nós seria uma minúscula peça de um grande puzzle... lançada ao acaso sobre o palco de um teatro cuja lógica já não conseguimos perceber quando o cenário precede a cortina... quando a cena permanece suspensa entre um céu e uma terra ausente, onde as raízes perderam o seu solo e começam a germinar em todas as direções... à espera da próxima erupção...
— No fundo, cada um de nós seria uma minúscula peça de um grande puzzle... lançada ao acaso sobre o palco de um teatro cuja lógica já não conseguimos perceber quando o cenário precede a cortina.
— Sabeis de onde vem a palavra puzzle?
— Não mais do que sei de onde venho eu próprio...
— Precisamente... O verbo inglês to puzzle significa colocar alguém num estado em que deixa de saber como as coisas se articulam.
— Creio... tal como vós... conhecer esse estado.
— O puzzle, portanto, não foi, na sua origem, um objeto.
— Então, o que era?
— Uma experiência...
— ...a de um espírito que perdeu o fio!
— Essa origem é importante. Vede... Antes de ser um jogo de reconstrução, o puzzle é uma desorientação.
— Poder-se-ia dizer que um puzzle é uma catástrofe, no sentido etimológico da palavra.
— Tendes inteira razão... Segundo o nosso mestre, a palavra grega katastrophê significa um volte-face, uma inversão.
— Então, se bem compreendo... o puzzle é uma imagem que foi recortada, colocada sobre uma mesa... depois virada e dispersa.
— Exatamente... Mas reparemos numa coisa estranha...
— Gosto das coisas estranhas... desde que não me angustiem demasiado.
— Reparareis que as peças desse puzzle, embora dispersas, não se tornaram estranhas umas às outras.
— Apenas perderam a possibilidade imediata de manifestar a sua pertença comum.
— Por outras palavras, a relação continua a existir.
— Apenas a sua visibilidade desapareceu...
— Eis já uma ideia profundamente filosófica!
— Pode existir uma ordem que já não vemos.
— Como nos diz o nosso mestre... a maior parte das filosofias modernas oscila entre dois modelos.
— Tal como nós...
— O primeiro — o vosso, por exemplo — imagina que o mundo é constituído por elementos separados, que depois são reunidos.
— E eu, como vosso fiel companheiro, afirmo que existe, antes de tudo, uma totalidade da qual as partes procedem.
— Assim, o puzzle pareceria pertencer ao primeiro modelo.
— Tenho a impressão de que me ireis contradizer imediatamente...
— Na verdade, pertence inteiramente ao segundo.
— Tinha a certeza... Explicai-me, por favor!
— As peças, ao contrário do que se poderia pensar, não adquirem a sua identidade quando são montadas.
— Creio compreender... Já eram as peças desse puzzle antes de serem reunidas.
— A sua verdade precede a sua reunião.
— E nós apenas descobrimos essa verdade pouco a pouco.
— Não haverá aqui algo de quase platónico quando dizeis que as relações existem antes do nosso conhecimento delas?
— É mais do que provável... Mas o puzzle ultrapassa Platão num ponto essencial.
— Qual?
— Uma peça, por si só, nada significa.
— Não é um fragmento autónomo.
— É uma forma de espera.
— O seu contorno já é um diálogo.
— Cada reentrância chama uma saliência.
— Cada curva contém a memória de outra curva.
— Uma peça nunca diz: «eu sou».
— Então, o que diz?
— Diz sempre: «falta-me alguém».
— Nisso parece-se convosco... quando eu não estou presente.
— Outros filósofos*, porém, teriam provavelmente insistido noutro aspeto.
— E qual seria esse aspeto?
— Quase nunca resolvemos um puzzle apenas pelo raciocínio.
— Que quereis dizer com isso?
— As mãos sabem muitas vezes antes da inteligência.
— Roda-se uma peça.
— Aproxima-se.
— Sente-se que «ainda não é esta».
— E depois, de repente...
— Como um relâmpago no céu!
— Mais calmamente... sem verdadeira demonstração, alguma coisa entra em acordo.
— O corpo reconhece uma coerência...
— O puzzle mostra, assim, que o conhecimento não é apenas intelectual...
— É também percetivo.
— Os dedos aprendem uma lógica que os conceitos só formulam mais tarde.
— Sabeis de onde vem a palavra puzzle?
— Não mais do que sei de onde venho eu próprio...
— Precisamente... O verbo inglês to puzzle significa colocar alguém num estado em que deixa de saber como as coisas se articulam.
— Creio... tal como vós... conhecer esse estado.
— O puzzle, portanto, não foi, na sua origem, um objeto.
— Então, o que era?
— Uma experiência...
— ...a de um espírito que perdeu o fio!
— Essa origem é importante. Vede... Antes de ser um jogo de reconstrução, o puzzle é uma desorientação.
— Poder-se-ia dizer que um puzzle é uma catástrofe, no sentido etimológico da palavra.
— Tendes inteira razão... Segundo o nosso mestre, a palavra grega katastrophê significa um volte-face, uma inversão.
— Então, se bem compreendo... o puzzle é uma imagem que foi recortada, colocada sobre uma mesa... depois virada e dispersa.
— Exatamente... Mas reparemos numa coisa estranha...
— Gosto das coisas estranhas... desde que não me angustiem demasiado.
— Reparareis que as peças desse puzzle, embora dispersas, não se tornaram estranhas umas às outras.
— Apenas perderam a possibilidade imediata de manifestar a sua pertença comum.
— Por outras palavras, a relação continua a existir.
— Apenas a sua visibilidade desapareceu...
— Eis já uma ideia profundamente filosófica!
— Pode existir uma ordem que já não vemos.
— Como nos diz o nosso mestre... a maior parte das filosofias modernas oscila entre dois modelos.
— Tal como nós...
— O primeiro — o vosso, por exemplo — imagina que o mundo é constituído por elementos separados, que depois são reunidos.
— E eu, como vosso fiel companheiro, afirmo que existe, antes de tudo, uma totalidade da qual as partes procedem.
— Assim, o puzzle pareceria pertencer ao primeiro modelo.
— Tenho a impressão de que me ireis contradizer imediatamente...
— Na verdade, pertence inteiramente ao segundo.
— Tinha a certeza... Explicai-me, por favor!
— As peças, ao contrário do que se poderia pensar, não adquirem a sua identidade quando são montadas.
— Creio compreender... Já eram as peças desse puzzle antes de serem reunidas.
— A sua verdade precede a sua reunião.
— E nós apenas descobrimos essa verdade pouco a pouco.
— Não haverá aqui algo de quase platónico quando dizeis que as relações existem antes do nosso conhecimento delas?
— É mais do que provável... Mas o puzzle ultrapassa Platão num ponto essencial.
— Qual?
— Uma peça, por si só, nada significa.
— Não é um fragmento autónomo.
— É uma forma de espera.
— O seu contorno já é um diálogo.
— Cada reentrância chama uma saliência.
— Cada curva contém a memória de outra curva.
— Uma peça nunca diz: «eu sou».
— Então, o que diz?
— Diz sempre: «falta-me alguém».
— Nisso parece-se convosco... quando eu não estou presente.
— Outros filósofos*, porém, teriam provavelmente insistido noutro aspeto.
— E qual seria esse aspeto?
— Quase nunca resolvemos um puzzle apenas pelo raciocínio.
— Que quereis dizer com isso?
— As mãos sabem muitas vezes antes da inteligência.
— Roda-se uma peça.
— Aproxima-se.
— Sente-se que «ainda não é esta».
— E depois, de repente...
— Como um relâmpago no céu!
— Mais calmamente... sem verdadeira demonstração, alguma coisa entra em acordo.
— O corpo reconhece uma coerência...
— O puzzle mostra, assim, que o conhecimento não é apenas intelectual...
— É também percetivo.
— Os dedos aprendem uma lógica que os conceitos só formulam mais tarde.
* Merleau-Ponty, por exemplo.

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