mardi 28 juillet 2026

(159) A abracadabrante história da Criança Lua

 Onde podemos ver, tal como os papagaios, que, no fundo, cada um de nós seria uma minúscula peça de um grande puzzle... lançada ao acaso sobre o palco de um teatro cuja lógica já não conseguimos perceber quando o cenário precede a cortina... quando a cena permanece suspensa entre um céu e uma terra ausente, onde as raízes perderam o seu solo e começam a germinar em todas as direções... à espera da próxima erupção...


— No fundo, cada um de nós seria uma minúscula peça de um grande puzzle... lançada ao acaso sobre o palco de um teatro cuja lógica já não conseguimos perceber quando o cenário precede a cortina.
— Sabeis de onde vem a palavra puzzle?
— Não mais do que sei de onde venho eu próprio...
— Precisamente... O verbo inglês to puzzle significa colocar alguém num estado em que deixa de saber como as coisas se articulam.
— Creio... tal como vós... conhecer esse estado.
— O puzzle, portanto, não foi, na sua origem, um objeto.
— Então, o que era?
— Uma experiência...
— ...a de um espírito que perdeu o fio!
— Essa origem é importante. Vede... Antes de ser um jogo de reconstrução, o puzzle é uma desorientação.
— Poder-se-ia dizer que um puzzle é uma catástrofe, no sentido etimológico da palavra.
— Tendes inteira razão... Segundo o nosso mestre, a palavra grega katastrophê significa um volte-face, uma inversão.
— Então, se bem compreendo... o puzzle é uma imagem que foi recortada, colocada sobre uma mesa... depois virada e dispersa.
— Exatamente... Mas reparemos numa coisa estranha...
— Gosto das coisas estranhas... desde que não me angustiem demasiado.
— Reparareis que as peças desse puzzle, embora dispersas, não se tornaram estranhas umas às outras.
— Apenas perderam a possibilidade imediata de manifestar a sua pertença comum.
— Por outras palavras, a relação continua a existir.
— Apenas a sua visibilidade desapareceu...
— Eis já uma ideia profundamente filosófica!
— Pode existir uma ordem que já não vemos.
— Como nos diz o nosso mestre... a maior parte das filosofias modernas oscila entre dois modelos.
— Tal como nós...
— O primeiro — o vosso, por exemplo — imagina que o mundo é constituído por elementos separados, que depois são reunidos.
— E eu, como vosso fiel companheiro, afirmo que existe, antes de tudo, uma totalidade da qual as partes procedem.
— Assim, o puzzle pareceria pertencer ao primeiro modelo.
— Tenho a impressão de que me ireis contradizer imediatamente...
— Na verdade, pertence inteiramente ao segundo.
— Tinha a certeza... Explicai-me, por favor!
— As peças, ao contrário do que se poderia pensar, não adquirem a sua identidade quando são montadas.
— Creio compreender... Já eram as peças desse puzzle antes de serem reunidas.
— A sua verdade precede a sua reunião.
— E nós apenas descobrimos essa verdade pouco a pouco.
— Não haverá aqui algo de quase platónico quando dizeis que as relações existem antes do nosso conhecimento delas?
— É mais do que provável... Mas o puzzle ultrapassa Platão num ponto essencial.
— Qual?
— Uma peça, por si só, nada significa.
— Não é um fragmento autónomo.
— É uma forma de espera.
— O seu contorno já é um diálogo.
— Cada reentrância chama uma saliência.
— Cada curva contém a memória de outra curva.
— Uma peça nunca diz: «eu sou».
— Então, o que diz?
— Diz sempre: «falta-me alguém».
— Nisso parece-se convosco... quando eu não estou presente.
— Outros filósofos*, porém, teriam provavelmente insistido noutro aspeto.
— E qual seria esse aspeto?
— Quase nunca resolvemos um puzzle apenas pelo raciocínio.
— Que quereis dizer com isso?
— As mãos sabem muitas vezes antes da inteligência.
— Roda-se uma peça.
— Aproxima-se.
— Sente-se que «ainda não é esta».
— E depois, de repente...
— Como um relâmpago no céu!
— Mais calmamente... sem verdadeira demonstração, alguma coisa entra em acordo.
— O corpo reconhece uma coerência...
— O puzzle mostra, assim, que o conhecimento não é apenas intelectual...
— É também percetivo.
— Os dedos aprendem uma lógica que os conceitos só formulam mais tarde. 



Merleau-Ponty, por exemplo.

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