O abismo não é um cenário metafísico; é uma distância. Distância entre o que é vivido e o que pode ser dito. Entre o que é verdadeiramente dito e o que pode ser ouvido. Mas sobretudo entre o que pode ser ouvido e o que é reconhecido. Cada palavra lançada ao mundo atravessa esse espaço, e quanto mais carregada de necessidade, mais ali se altera. Ela nunca chega intacta. Chega como um fragmento… às vezes como um rumor… A incompreensão não é um erro de transmissão; é a lei da passagem.
Quem escreve a partir desse lugar não fala para convencer, nem para reunir. Fala porque não falar seria um desaparecimento ainda maior. A escrita torna-se então um gesto de sustentação, uma maneira de permanecer de pé no intervalo, sem ilusão quanto ao que será recebido. O que ressoa em si não busca um eco fiel; aceita de antemão a deformação, como o preço da sua existência fora de si. A frase que fosse perfeitamente acessível e compreendida já estaria morta, porque teria renunciado ao que a tornava necessária.
A incompreensão, nessa perspectiva, não é uma humilhação, mas uma consequência natural. Os leitores não estão ausentes; estão simplesmente noutro lugar. Leem a partir das suas próprias fissuras. Reconhecem o que pode ajustar-se à sua forma e deixam cair o resto. O que lhes chega nunca é o que foi escrito, mas aquilo que conseguiu sobreviver à travessia. Assim, alguns captam uma vibração sem poder nomear a sua origem. Outros ouvem apenas um ruído indistinto. A maioria passa ao lado, não por indiferença, mas porque o abismo não é atravessável sem um certo vertigem.
O silêncio persiste então, mas muda de natureza. Já não é o silêncio da origem; é aquele que se segue ao envio. Um silêncio povoado de interpretações erradas ou de leituras parciais… de olhares que deslizam ou se desviam… O escritor que o aceita deixa de esperar. Já não escreve para ser alcançado, mas para permanecer fiel àquilo que, nele, não suporta a mentira da adaptação. Ele sabe que a profundidade não chama a adesão, mas o isolamento — não como postura, mas como consequência.
Nesse espaço, escrever equivale a falar numa sala escura, sem verificar quem ainda está ali. Talvez alguém, em algum lugar, reconheça uma inflexão familiar, uma tensão que também carrega sem formulá-la. Nunca será um encontro frontal. Será um cruzamento discreto, quase clandestino, entre duas solidões que não se nomeiam. No resto do tempo haverá apenas o silêncio, e esse silêncio não será um fracasso. Será a prova de que o texto não foi achatado para ser recebido. Prova também de que conservou a sua densidade. Isso não é sem risco… Escrever assim é aceitar que o sentido não se partilha como um objeto, mas como uma falha. Alguns cairão nela por um instante. Outros olharão sem ver. E isso basta.

Aucun commentaire:
Enregistrer un commentaire