jeudi 8 janvier 2026

Tomar o tempo.


“– Pois não, meu caro Unamuno, você não pode me matar.
– Como assim?
– Não, você não pode. Porque você mesmo é um personagem de ficção. E eu sou tão real quanto você.”

Miguel de Unamuno, Névoa


Caro Félix,
Tomo finalmente o tempo de lhe escrever a respeito de Igniatius, não para retomar explicitamente o que recentemente complicou nossas trocas — você certamente já percebe seus efeitos indiretos —, mas para lhe comunicar um elemento novo, ou antes uma nova configuração de elementos antigos, que me parece merecer sua atenção.
Igniatius enviou-me uma carta incomum tanto pelo tom quanto pelo objeto. Nela, ele não fala de si de maneira frontal, o que não é surpreendente, mas de um de seus personagens a quem chama Don Carotte. Você compreenderá facilmente que não se trata de um simples pseudônimo lúdico. Esse deslocamento do nome, quase irrisório à primeira vista, produz um efeito preciso: autoriza um discurso mais arriscado, mantendo ao mesmo tempo uma distância protetora.
Nessa carta, Igniatius me conta — e sublinho o verbo — que recebeu uma mensagem de Don Carotte. Ele não a transmite; ele a reconstrói. Esse detalhe me parece essencial. O que recebo não é a carta de Don Carotte, mas a versão que Igniatius é capaz de dar dela naquele momento preciso. Em outras palavras, um relato já trabalhado, filtrado, talvez até reorganizado para produzir um certo efeito em seu destinatário.
Segundo o que ele me diz, Don Carotte se declara em estado de insurreição. Não uma revolta ruidosa, mas uma tomada de posição firme, quase serena, dirigida exclusivamente contra aquele que o fez surgir. Ele acusa sem invectiva. Não reivindica nada. Afirma sobretudo sua recusa em ser encerrado numa história que, segundo ele, não lhe pertence e, sobretudo, num fim que não lhe convém. Essa postura, tal como Igniatius a relata, age sobre ele como uma provocação silenciosa.
O que me interessa ainda mais é a maneira como Igniatius descreve sua própria reação. Ele fala de um primeiro movimento de cólera, que associa a uma perda de controle, e depois de um deslizamento progressivo em direção a algo mais ambíguo. Não se trata mais apenas de se defender, mas de reconhecer uma forma de atração. Don Carotte, nesse relato, torna-se menos um adversário do que um foco de tensão em torno do qual Igniatius volta a se organizar.
Registro com atenção a prudência exibida por meu paciente. Ele se descreve como atento e comedido. Poder-se-ia quase tomá-lo por conciliador. Contudo, entre as linhas, desenha-se um projeto menos confessável: o de prolongar a situação, de relançar o diálogo, não para encerrá-lo, mas para expô-lo ainda mais. Essa intenção, sua recusa obstinada de um fim imposto — perfeitamente semelhante à de Don Carotte — é apresentada como uma abertura, mas conserva algo de estratificado. Igniatius sabe manejar a palavra a ponto de fazê-la um instrumento de contorno.
Confio-lhe isso sem buscar decidir. Parece-me que Don Carotte, tal como aparece nesse relato indireto, funciona como uma figura que se recusa a ser fixada numa única versão. Cada voz que fala dele modifica ligeiramente seu contorno. A verdade dessa insurreição não se encontra em nenhum desses relatos tomados isoladamente, mas no desvio que os separa. Constato que o relato é constantemente retrabalhado ou reconstruído. Aliás, ele reivindica explicitamente seu próprio direito de reorganizá-lo. É esse desvio que, por ora, me parece mais operante.


Permaneço atento ao que virá, sem intervir além do necessário. Igniatius não é homem de receber uma advertência sem revertê-la a seu favor. Prefiro observar como essa figura que ele acreditava dominar continua a agir nele, por meio da própria linguagem de que se serve para falar dela.
Escrevo-lhe menos para obter uma diretiva do que para inscrever esses elementos num quadro compartilhado. Sua leitura, se aceitar comunicá-la, certamente deslocará a minha, o que só poderá enriquecer a abordagem.
Com toda a minha consideração profissional,
Lucian


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