Ser atento a alguém, sinto, não é apenas conceder-lhe tempo; é
reconhecer uma existência que pode obrigar-me… ou transformar-me, e
talvez seja isso que temo.
À medida que me observo assim,
reconheço o quanto, com frequência, a minha atenção se deixa governar
por forças que lhe são estranhas. Ela se afasta de si mesma. Sinto-a
dispersar-se. Creio que se entrega a objetos que a solicitam sem a
nutrir. E compreendo então que a liberdade de que eu me julgava provido é
apenas aparente, pois onde a minha atenção é capturada, o meu ser
também o é. A verdadeira liberdade, pressinto, não consiste em
multiplicar escolhas, mas em poder decidir, no silêncio interior, o que
merece que eu ali permaneça.
Pouco a pouco, a atenção deixa de me
parecer uma tensão ou uma disciplina, e assume o rosto mais suave, mas
também mais exigente, de uma forma de amor. Não falo de um amor ávido,
que se apodera e consome. Falo de um amor atento que deixa ser e aceita
nada possuir. Quando consigo, ainda que por um instante, alcançar essa
qualidade de presença, o mundo deixa de me ser hostil ou indiferente:
torna-se, simplesmente, disponível.
Assim, compreendo que, se
tantos momentos da minha vida se dissolvem sem deixar vestígio, não é
por serem pobres ou insignificantes, mas porque não soube oferecer-lhes
essa atenção sem a qual nada se inscreve de modo duradouro em mim. E
parece-me então que reaprender a ser atento não equivale a melhorar a
minha vida, mas a finalmente encontrá-la, naquilo que ela tem de mais
discreto. Uma vida frágil, talvez, mas também mais verdadeira.
Eles
haviam se instalado nesse espaço incerto que não pertencia inteiramente
ao relato nem inteiramente ao que lhe escapava. Um lugar de palavra, em
suma, onde se pode falar sem ser ouvido por aqueles que ainda acreditam
segurar a pena.
Don Carotte, pois Sang Chaud agora carregava esse nome com uma segurança inteiramente nova, rompe o silêncio.
Don Carotte (que foi Sang Chaud)
Diga-me
uma coisa, Anatole. O senhor fala de Igniatius e de Lucian como se lhes
fossem familiares. Evoca-os com uma precisão que me escapa. Eu sei que
viemos de Igniatius, que ele nos fez aparecer e depois nos deslocou. Sei
também, por um eco confuso, que ele se confia a um certo Lucian. Mas o
senhor parece saber mais. Como tem acesso ao que está fora de nós?
Anatole
não responde de imediato. Observa aquele que tomou o seu lugar como se
observa um paciente que formula a pergunta certa sem ainda medir o seu
alcance.
Anatole
O senhor supõe que esse saber vem de fora. É
aí que se engana… levemente. O que sabemos de Igniatius e de Lucian não
nos foi transmitido como informação. Depositou-se em nós à medida que
Igniatius falava consigo mesmo. Cada vez que tentava compreender-se,
algo dessa tentativa nos atravessava.
Don Carotte
Quer dizer que os ouvimos sem que falassem em voz alta?
Anatole
Eu
diria antes que fomos o lugar onde o diálogo deles deixou vestígios.
Igniatius não nos conta Lucian. Ele conta a si mesmo através dele. E
esse relato, mesmo quando se acredita privado, produz efeitos. Nós somos
feitos deles.
Don Carotte franze levemente a testa. O nome que carregava até pouco tempo parece pesar de outro modo sobre seus ombros.
Don Carotte
Então Lucian não seria apenas aquele que escuta Igniatius?
Anatole
Não.
Ele é também aquele que permite a Igniatius acreditar-se unificado.
Aquilo que nos diz respeito, a você e a mim, nasce precisamente onde
essa unidade vacila. Quando Igniatius fala com Lucian, ele tenta reunir o
que se dispersa. Ora, nós somos essa dispersão. Não é, portanto,
surpreendente que saibamos o que ele procura conter.
Don Carotte
E
eu, em tudo isso? Tomei o seu nome. Ocupo o espaço que o senhor deixou.
Ainda sou eu mesmo, ou apenas uma forma deslocada do senhor?
Anatole esboça um sorriso que não é tranquilizador, mas atento.
Anatole
O
senhor não tomou o meu lugar. Respondeu a um chamado deixado em aberto.
Quando deixei de ser Don Carotte, esse nome permaneceu disponível,
carregado de expectativa. O senhor o investiu com aquilo que é. É por
isso que se interroga. O nome o expõe a uma pergunta que ainda não havia
formulado.
Don Carotte
E o senhor, Anatole, o que faz agora? O senhor me surpreende… fala como Lucian poderia falar…
Anatole
É
possível. Mas não curo ninguém. Tento apenas compreender o que nos
atravessa. Se lhe falo assim, é porque o senhor ocupa uma posição
instável. O senhor é ao mesmo tempo aquele que segue e aquele que
conduz. Essa contradição merece ser pensada.
Don Carotte
E Igniatius, em tudo isso, ainda acredita que nos escreve… e nos guia?
Anatole
Ele
acredita, certamente. Isso deve ajudá-lo. Mas ele não acredita… não
quer que continuemos sem ele… e sem pedir permissão. Quanto a Lucian,
ele observa, interpreta, tenta manter uma distância. O que ambos ignoram
é que o diálogo deles nos tornou capazes de falar entre nós.
Um silêncio se instala, não como uma pausa, mas como uma tomada de consciência.
Don Carotte
Então não somos… ou já não somos… apenas as criaturas deles.
Anatole
Não.
Somos o que resta quando eles acreditam ter dito tudo. E enquanto
continuarem a falar um com o outro, teremos com o que pensar.
Eles se calam. Não porque a conversa estivesse encerrada, mas porque acabara de encontrar o seu verdadeiro lugar.

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