lundi 26 janvier 2026

Subitamente


“Quando danço, danço; quando durmo, durmo; e mesmo quando passeio sozinho num belo pomar, se por algum tempo meus pensamentos se ocuparam de assuntos alheios, eu os trago de volta ao passeio, ao pomar, à doçura dessa solidão e a mim mesmo. Nossa grande e gloriosa obra-prima é viver a propósito. Todo o resto—reinar, entesourar, construir—não passa de pequenos apêndices e auxílios, quando muito.”

Montaigne, Ensaios



Caderno de Anatole

Uma pergunta surge de repente, como uma onda no espírito. Ela aparece e se instala.
Pensarei realmente algo novo?
Essa pergunta aponta para uma fonte ainda desconhecida da experiência humana. Eu a deixo aberta, viva. Ela vibra como uma tensão suave, voluntária. No entanto, sua forma de aparecer me é familiar: a pergunta já traz em si o movimento que gostaria de ultrapassar.
Então volto minha atenção para o movimento do pensamento. Vejo como um pensamento chama outro, como uma imagem arrasta outra imagem. Observo como uma lembrança desliza para uma expectativa. Nada surge do nada. Inventar, aqui, é recompor. Até a ruptura permanece uma variação do mesmo paisagem interior. O pensamento funciona por automatismos; ele se encadeia antes mesmo de a experiência se oferecer plenamente.
Pouco a pouco, uma compreensão se instala.
Buscar um pensamento novo ainda faz parte do jogo do pensamento. O passado empurra em direção a um futuro sonhado como livre, e esse movimento, como a água num espaço fechado, gira e gira, tentando em vão escapar.
Algo então muda, não no próprio pensamento, mas na maneira de se relacionar com ele.
A expectativa de uma revelação se afrouxa. O pensamento torna-se visível como uma corrente: suas repetições e suas astúcias aparecem claramente como um caminho marcado. Uma atenção simples se instala, sem objetivo, voltada para o que se mostra. E nessa atenção nua, algo inesperado se dá.
Por momentos, pensar se interrompe por si mesmo. Não há nada a acrescentar, nada a comentar. A situação está plenamente presente. Uma presença tranquila preenche o espaço. A experiência se desdobra sem centro, sem narrador. O mundo se oferece diretamente, sem o esforço de compreender. Como se pensar já não fosse necessário.
Então surge uma evidência. A verdadeira novidade não nasce do pensamento. Ela surge quando o pensamento se retira. É breve, frágil, como a luz da aurora—essa luz que já habita meu nome, Anatole. Um instante puro, antes de qualquer interpretação.
Nesse instante, a pessoa que busca se superar desaparece. Resta uma consciência que vê, à distância, o condicionamento em ação, sem se confundir com ele. Certamente, o condicionamento ainda está ali, mas seu poder mudou: torna-se uma ferramenta, não um mestre.
A resposta à pergunta inicial se revela então, não como uma ideia, mas como uma evidência vivida.
Um pensamento absolutamente novo não existe. Mas outra possibilidade se abre: ver. Ver sem o peso do passado, sem projetar o futuro. Nesse olhar, eu me apago por um instante. Resta apenas uma clareza impessoal… uma abertura. E essa abertura permanece, enquanto não se tenta capturá-la. Pois querer fixá-la faria retornar os antigos reflexos. Uma compreensão nova e estável então se instala: a liberdade não é a ausência de condicionamento, mas a capacidade de atravessá-lo lucidament e, no exato momento em que ele aparece.
Uma liberdade discreta, vibrante, frágil, justo no limiar da experiência.


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