samedi 3 janvier 2026

Distância

 
“Falar não é ver.
Falar é afastar-se do que é,
é entrar no movimento da ausência.”

Maurice Blanchot, O Espaço Literário (1955)


Caderno de Lucian
Se Sapiens narrans é o humano que conta, Sapiens dissimulans é aquele que seleciona. Ele censura e ajusta. É aquele para quem a história não é apenas o que se diz, mas sobretudo o que não se diz. O relato humano nunca é transparente. Sob cada frase há uma sombra. Sob essa sombra trabalha um véu que, alternadamente, oculta e revela. Não construímos apenas histórias; ao construí-las, instalamos silêncios. Antes de ser moral, a dissimulação é biológica. No reino animal, camuflar-se é uma condição de sobrevivência. No humano, a camuflagem migra do corpo para o espírito. Aprendemos a esconder nossos medos para não sermos dominados. Raramente mostramos nossas dúvidas para não sermos excluídos. Nossos desejos tornam-se discretos para não sermos julgados, e escondemos nossa vulnerabilidade para não sermos feridos. A dissimulação é, antes de tudo, uma armadura. Ela não é o contrário da verdade. É uma estratégia de preservação.
“A linguagem começa onde a presença se desfaz.”
Essa frase de Maurice Blanchot diz algo muito simples: falamos quando aquilo que vivemos já não está totalmente presente. Enquanto uma experiência é imediata e inteira, ela dispensa palavras. Basta a si mesma, em um silêncio natural. A linguagem aparece quando essa imediaticidade se atenua. Quando o vínculo direto com aquilo que sentimos se afrouxa, instala-se uma distância. É nesse espaço que as palavras se tornam possíveis. Elas surgem quando a experiência já não está plenamente presente, quando pede para ser compreendida. Uma palavra nunca recobre completamente aquilo que designa. Ela vem depois da experiência. Conserva dela um traço, uma forma, sem poder restitui-la tal como foi vivida. Falar é tomar distância, transformar o que foi sentido em algo que pode ser pensado. Essa distância é essencial na vida humana. Precisamos das palavras para atravessar aquilo que nos afeta. A dor torna-se dizível quando pode ser reconhecida e nomeada. O medo torna-se mais claro quando pode ser formulado. Colocar em palavras ajuda a não permanecer preso à intensidade bruta das sensações. A linguagem implica sempre uma escolha. Ela não pode conter tudo. Faz aparecer certas coisas e deixa outras em segundo plano. O silêncio permanece em torno das palavras. Ele lhes dá espaço e lhes permite existir. Nessa perspectiva, a linguagem permite dar uma forma humana ao que vivemos. Ela mantém algo da experiência quando a imediaticidade se afastou. O sentido nasce desse trabalho discreto de formação e transmissão. A linguagem não é, portanto, apenas um meio de comunicação. Ela é o espaço no qual o humano aprende a viver com a distância que o separa daquilo que sente. É a partir dessa distância que o relato pode se desdobrar. É aí que se encontra a chave que poderá abrir a porta de acesso ao mistério de Igniatius.

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