vendredi 30 janvier 2026

Infiel

 

“A doçura, no entanto… Uma doçura que não se mede, que não pode ser reduzida a nenhuma ideia, a nenhum sentimento. A doçura que as palavras não me deram a conhecer, que os quadros, os filmes, as melodias, os ritmos não souberam restituir-me. Ela está ali, a suavidade suprema, neste instante, tão evidente, tão pura, tão perturbadora que eu gostaria de arrancar-me do fantasma do meu corpo e mergulhar nela, confundir-me com ela, nadar nesse mar, flutuar, vaguear, dissolver-me!
Isso aconteceu comigo, foi-me dado, a mim que nada pedia, que nada esperava! Jorrou, imensamente jorrou de todos os lados ao mesmo tempo, apareceu milagrosamente, continuamente, sobre o espetáculo da realidade. Antes dela, não havia nada. Ou melhor, havia o quarto, com suas paredes de papel amarelado, seus móveis de madeira, seus livros de papel, suas janelas, sua porta, seus tapetes e cobertores, seu teto manchado, sua lâmpada elétrica nua na ponta do fio torcido. E depois, de repente, enquanto eu a olhava, a realidade se cobriu de cristal. Nada se quebrou, nada cintilou; a luz transparente se instalou sobre o mundo, tão bela que eu já não conseguia compreender. Tudo, absolutamente tudo, estava ali; ao mesmo tempo estranho e familiar, distante e muito próximo, mágico e calmo. O ar era como fogo. As paredes eram como fogo. Os objetos dispersos, imóveis, erguiam-se por si mesmos como chamas. No quarto fechado, a luz elétrica irrompia da lâmpada com um brilho feroz. Os ruídos, os odores, as sensações de distância ou de dureza, a presença — tudo isso se misturara à visão. Tudo se tornara espetáculo estendido, espetáculo que eu mais do que via, que eu era, que eu era. Delicado, talhado, minucioso no menor detalhe, o milagre se construía sem se mover. Estava em si mesmo, instalado em sua própria vida, e já não podia desaparecer. Com meus olhos, estendidos diante de mim como tentáculos, eu tocava as camadas do ar. Eu as atravessava vibrando e ia muito além das paredes do quarto. Como uma corrida no vazio negro e gelado, o movimento do meu olhar e dos meus sentidos avançava no meio da existência. Os objetos nus, como se estivessem sobre pedestais, erguiam-se e tornavam-se estátuas. O vidro, o metal, a matéria plástica granulada, as cores bege, ocre, amarela, branca, cinzenta espalhavam-se por toda parte. Cada pose era ao mesmo tempo blindada, hermeticamente encerrada em sua carapaça impenetrável e feroz, e ao mesmo tempo lívida, transparente, escorregadia — aventurava-se nela combo numa gota de água.”

J. M. G. Le Clézio, O Êxtase Material, Folio Ensaios



Diário de Anatole

À minha volta, a linguagem circula com facilidade. As trocas acontecem rapidamente. As palavras encontram o seu lugar. Eu percebo esse movimento. Às vezes, acompanho-o. Mas quando tento fazer entrar nele o que sinto, algo se contrai. A palavra escolhida não se sustenta. Ela deixa escapar o essencial. Ela fixa aquilo que, em mim, permanece vivo, móvel, ainda em formação.

Compreendo então que a língua que emprego não é a da minha experiência. Ela pertence ao mundo comum, aos seus usos, às suas necessidades. Pouco importa qual seja: ela supõe sempre uma redução prévia. Ora, o que me atravessa resiste a essa operação. Transborda. Excede os quadros disponíveis. Para falar, devo traduzir sem cessar. Devo procurar equivalências ou, pelo menos, aceitar aproximações que me parecem infiéis.

Esse trabalho interior é constante. Ele me esgota. O que chega aos outros chega diminuído, por vezes desajeitado… e mesmo, na maioria das vezes, se não opaco, ao menos complicado. O descompasso torna-se visível. O meu silêncio é interpretado como vazio. A minha lentidão passa por falta. Julgam que não compreendo, quando na verdade compreendo demais. Veem-me sonhador, distraído, alhures, como se eu estivesse afastado do mundo, quando na realidade estou nele mergulhado sem nenhum filtro.



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