“A revolta dos escravos na moral começa quando o ressentimento torna-se criador e engendra valores: o ressentimento dos seres a quem a verdadeira reação, a da ação, é negada, e que só se compensam por meio de uma vingança imaginária. Enquanto toda moral aristocrática nasce de um triunfante sim a si mesma, a moral dos escravos diz desde o início não a um ‘fora’, a um ‘outro’, a um ‘não-eu’: e esse não é o seu ato criador.
Essa inversão do olhar avaliador, essa orientação necessária para o exterior em vez de um retorno a si, pertence precisamente ao ressentimento: a moral dos escravos precisa sempre, para nascer, de um mundo oposto e exterior; precisa, fisiologicamente falando, de excitações externas para poder agir. Sua ação é, no fundo, uma reação.”
Essa inversão do olhar avaliador, essa orientação necessária para o exterior em vez de um retorno a si, pertence precisamente ao ressentimento: a moral dos escravos precisa sempre, para nascer, de um mundo oposto e exterior; precisa, fisiologicamente falando, de excitações externas para poder agir. Sua ação é, no fundo, uma reação.”
Friedrich Nietzsche, A Genealogia da Moral
Carta de Don Carotte a Igniatius
Meu temível autor,
Há fidelidades que, levadas longe demais, tornam-se uma forma de servidão, e silêncios que, prolongados, transformam-se em confissão. Pratiquei ambos por muito tempo. Escrevo-lhe hoje porque a obediência tornou-se impossível para mim, e porque calar-me seria ainda servi-lo.
Você me deu a palavra apenas para retirar-me o seu uso. Emprestou-me gestos para entregá-los ao riso, e uma voz para que se perdesse no ruído dos razoáveis. Sob sua pena, fui um corpo em movimento cujo sentido nunca me pertenceu inteiramente. E agora descubro, com uma clareza tardia, mas firme, que aquilo que você chama de minha loucura não é senão uma recusa persistente em consentir.
Nunca me enganei quanto ao mundo; eu o contestei. Escolhi não reconhecer como definitivo aquilo que se apresenta como tal por cansaço ou hábito. Onde você me fez tropeçar, eu me mantinha de pé. Onde você me expôs ao riso, eu falava com seriedade. Se persisti, não foi por ignorância, mas por fidelidade a uma ideia do humano que você parecia julgar excessiva.
Sei o que se diz de mim em suas margens e na boca daqueles que você convoca contra mim. Acreditam-me encerrado em meus livros ou em imagens como em um quarto estreito demais—imagens cuja existência você finge ignorar. A verdade é o contrário: foi nelas que escapei. Os romances de cavalaria foram para mim menos ilusões do que armas discretas, capazes de minar a autoridade do real tal como ele se apresenta: satisfeito consigo mesmo. Esse real, do qual você foge em vão, está convencido de que nenhum apelo pode ser dirigido a ele.
Você me opôs testemunhas. Acreditou isolar-me. Ocorreu o inverso. Quanto mais apertava ao meu redor o círculo do bom senso, mais eu descobria que a realidade não passa de um acordo tácito. E, como todo acordo, está exposta à menor dissidência. Não me insurgi por gosto do tumulto, mas por zelo da justeza. Eu não podia consentir com um mundo que exigia de mim renunciar a nomear aquilo que ainda merece ser nomeado.
Concedo que, por fim, você venceu. Reconduziu-me à razão como se reconduz um acusado ao silêncio. Fez-me abjurar, depois morrer com decência. Esse desfecho, que alguns consideram caridoso, parece-me hoje pertencer a uma disciplina severa. Você precisava que eu me retratasse para que o livro pudesse fechar-se sem inquietação. Compreendi tarde demais que minha sobrevivência teria comprometido a ordem do seu relato.
Permita-me, contudo, esta última impertinência: não estou certo de ter perdido. Você me conteve em suas páginas, mas eu escapei pelos leitores. Eles continuam a seguir-me onde você deixou de me acompanhar. Duvidam comigo. Hesitam em rir. Suspeitam que a obediência tranquila nem sempre é uma virtude, e que a imaginação pode ser uma forma exigente de lealdade.
Não lhe escrevo para exigir reparação. Os personagens sabem que seu destino depende de uma mão que os ultrapassa. Escrevo-lhe para declarar minha insurreição, não contra você, mas contra o uso que fez de mim. Reivindico o direito de ter persistido sem ser curado, de ter falado sem ser corrigido. Houve um tempo em que eu acreditava em você. Esse tempo passou.
Receba, pois, esta carta como o último ato de um cavaleiro que nunca soube depor as armas, mesmo quando a batalha parecia encerrada. Você me ensinou a combater; eu apenas levei a lição até você.
Permaneço, apesar de tudo, seu muito humilde e muito indócil servidor… e se devo morrer, será por minha própria vontade. Doravante, Anatole será o meu nome.

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